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De boa e má ventura, portuguesa com certeza III – por Ângelo Novo

Foto do escritor: Apoyo Boaventura
Apoyo Boaventura
há 25 minutos
33 min de leitura

Investidas aniquiladoras experimentais


No ano de 2002 – tinham já passado quinze anos sobre a publicação de Um discurso sobre as ciências – o Sr. António Manuel Baptista, antigo professor da Academia Militar, formado em Física e Medicina Nuclear, divulgador científico, já um tanto idoso, resolveu atacar publicamente Boaventura em livro (55). Era um daqueles cavalheiros para quem o fascismo nunca existiu: foi um tempo em que havia respeito, que depois, infelizmente, deixou de haver. O autor, claramente, não estava a par dos debates sobre a filosofia das ciências havidos nas décadas anteriores. Para quem estava efetivamente informado, o episódio era antes reminiscente da polémica de Gago Coutinho contra a teoria da relatividade de Einstein.

Entretanto, nos estreitos limites pátrios, toda esta operação revelava já uma certa intencionalidade de aniquilamento público, desde o abrigo dado numa editora que granjeara algum prestígio na divulgação de ciência dura, até aos intervenientes que se juntaram prontamente aos ataques como Nuno Crato, Jorge Buescu, João César das Neves, João Carlos Espada e a recorrente Maria Filomena Mónica. A ideia a realçar era que a ciência é uma coisa e a ideologia outra completamente distinta e incompatível. O corolário – como seria incansavelmente sublinhado por Mónica – é que, quem não está com a objetividade, ou seja, com a ordem vigente das coisas, deve ser implacavelmente expulso da universidade e dos financiamentos, públicos e privados. É um perturbador da ordem pública, turvador do reto saber (burguês e ocidental, com certeza), envenenador da juventude.

Talvez toda esta operação tenha querido cavalgar a onda Sokal/Bricmont, cujo livro fora publicado pela Gradiva pouco tempo antes. Mas tratou-se, nesse caso, de um mero aproveitamento oportunístico, pois que o objetivo era completamente outro e o “pós-modernismo”, neste novo contexto, um mero pretexto aparentemente coincidente. Uma coisa é denunciar imposturas intelectuais acobertadas em linguagem esotérica, afetada e pedante. Outra coisa completamente distinta é tentar interditar, por impróprio e intelectualmente desonesto, todo o questionamento dos fundamentos epistemológicos da ciência moderna. Boaventura nunca foi um relativista epistemológico, o que parece ter escapado por completo aos seus detratores nesta ocasião.

Boaventura respondeu a esta campanha promovendo a publicação de uma obra coletiva que acaba por ser uma das suas realizações editoriais mais conseguidas (56). A agressão foi séria, mas foi-lhe permitido ripostar e o adversário revelou-se não estar à sua altura. Era demasiado ignorante e provinciano. Vivíamos ainda numa democracia. A direita radical, mais tarde federada no Observador, com o apoio do grande capital nacional, ainda não se permitia sonhar com a hegemonia absoluta e a consequente mutilação do regime, com notório cerceamento das liberdades públicas. Boaventura tinha granjeado grande prestígio internacional. Havia um receio infeliz da reprovação que pudesse vir “lá de fora”.

Ficaram célebres, mais tarde, os ataques descabelados de Maria Filomena Mónica no jornal Público (57) e no semanário Expresso, ao longo de vários anos, a que Boaventura não deu qualquer resposta, ao que julgo saber. Grassava por ali um ódio obsessivo, não há dúvida. O facto interessante é que esta senhora, qual Salomé enfurecida, se julgou suficientemente dona da república portuguesa (sobretudo com a direita no governo) para clamar, em altíssimo som, da forma mais estridente possível, pela cabeça de um colega. Não a obteve, no imediato, é certo. Mas não teve nenhum temor do ridículo. Saiu da liça (onde compareceu sozinha) toda ufana, muito cumprimentada, certamente, com o sentido do dever cumprido. Pobre república!

Para além das suas posições políticas e científicas dissonantes, há um conjunto de outras constatações que fazem com que Boaventura se afigure como um homem absolutamente repelente para as tradicionais elites portuguesas. A primeira é, sem dúvida, o facto de ele, não sendo de Lisboa, não optar, ao menos, por ir viver e lecionar em Lisboa. Imperdoável arrogância. Lisboa concentra em si, necessariamente, tudo o que tem valor e brilho próprio neste país. Um intelectual que não vive em Lisboa, é um eremita. Não pode exprimir-se na esfera pública e muito menos projetar-se para o exterior do país. A segunda constatação é a sua origem popular, que faz dele um parvenu. Um filho de cozinheiro não pode ter a polidez e a velha cultura, bem assimilada e cuidada, que só gerações sucessivas de hábitos ociosos e boa ilustração podem trazer. Se não se põe no seu lugar de livre vontade, há que correr com ele à força. O pior, porém, estava ainda para vir. Começaram a correr insistentemente, nos mentideiros da intelectualidade lisboeta, rumores de que Boaventura (um nome irremediavelmente plebeu) era bom amante e tinha um extraordinário sucesso com as mulheres. Que horror! Um frémito de inseguro empertigamento percorreu os cavalheiros e de escandalizado desdém (com alguma secreta curiosidade subjacente), as senhoras. O desconcerto e o despeito foram sempre em crescendo, a cada uma destas constatações. À última, atinge-se o paroxismo do ódio. Soam todos os alarmes. Esses ventos tresloucados de abril deixaram ficar entre nós um intruso, que é necessário aniquilar. Cão raivoso, cuidado!

Novos sucessos e aclamações

Ao longo da década inicial do milénio, sobretudo depois da sua conversão em Laboratório Associado do Estado português, em 2002 (governo Guterres, ministro José Mariano Gago), o CES desenvolveu, ampliou e internacionalizou enormemente as suas atividades. Aumentou exponencialmente o número dos seus investigadores, criou doze programas de doutoramento, o que permitiu o fluxo permanente de estudantes avançados, muitos deles estrangeiros. Por sua vez, o reconhecimento internacional da investigação realizada no CES atraiu para a instituição investigadores de vários países que realizaram aí estágios de mais ou menos curta duração. Criou-se assim uma grande massa crítica de jovens investigadores ligados ao CES. Isso criou também os seus problemas. Boaventura pairava com conspícua proeminência como figura tutelar da instituição. Ritmos desenfreados de trabalho (pela necessidade imperativa de dar respostas prontas aos financiadores), rivalidades, conflitos e preterições, criaram ressentimentos duradouros. Uma certa informalidade confiante e companheira, nas relações pessoais, levou, por vezes, a situações que, retrospetivamente, com má vontade, puderam ser instrumentalizadas de forma hostil.

Na viragem para uma nova década, novo triunfo. 2,42 milhões de euros foram atribuídos pelo Conselho Europeu de Investigação, para um projeto intitulado “ALICE – Espelhos estranhos, lições imprevistas: definindo para a Europa um novo modo de partilhar as experiências do mundo”. Agora tratava-se de um projeto de longo curso, que viria a decorrer no CES entre 2011 e 2016 com pleno êxito, tendo-se transformado depois no programa de investigação Alice-Epistemologias do Sul. O objetivo, claramente expresso, do projeto «Alice» era

“desenvolver novos paradigmas teóricos e de transformação social para as sociedades contemporâneas a partir da partilha transnacional de experiências e de conhecimentos. Mais especificamente, pretende-se investigar em que medida a Europa pode aprender com o mundo extra-europeu em quatro áreas principais: a democratização da democracia; o constitucionalismo transformador, interculturalidade e a reforma do Estado; as economias não-capitalistas; os direitos humanos (com especial incidência no direito à saúde) e outras gramáticas de dignidade humana” (58).

Não se pode senão admirar profundamente todo o extraordinário arrojo desta operação. O Conselho Europeu de Investigação é um organismo oficial da União Europeia, criado e tutelado pela Comissão Europeia. A Europa imperialista propunha-se agora aprender com o espaço extra-europeu, em tudo aquilo que constitui o núcleo central daquilo que sempre considerou ser sua “missão civilizadora” universal? É legítimo duvidar da seriedade desse empenho. Mas então foi, sem dúvida, necessário um excecional engenho para obter este financiamento. Foi, certamente, muito mais difícil do que um assalto à mão armada. O nome de Boaventura tinha créditos firmados, tanto intelectuais como de organização. Mas foi ainda preciso explorar, em profundidade, todos os imensos abismos de má-consciência, pedantismo, exibicionismo intelectual, duplicidade e hipocrisia, que habitam, insuspeitamente, em bom número daqueles engravatados e neuróticos burocratas da eurocracia bruxelense.

Nova humilhação para os adversários e detratores de Boaventura. Nova fuga em frente, rumo a compromissos intelectuais e institucionais que envolviam, sem dúvida, alguma dose de equivocidade. Para gerir este programa, o CES fundiu-se com outros institutos menores de ciências sociais, absorvendo assim outros académicos não formados na escola de Boaventura e mesmo seus adversários intelectuais. Os tratos continuados com a burocracia europeia envolveram também, sem dúvida, uma grande delicadeza.

Boaventura gozou certamente nas alturas com este seu triunfo. Atingira o seu ponto de máxima realização profissional sem trair os seus ideais militantes e solidários, num momento de forte maré vazante reacionária a nível mundial. Sensível à lisonja que lhe chovia de todos os lados, saboreou demoradamente o momento. Como qualquer português bafejado pelo sucesso internacional, que não seja monge eremita, Boaventura condescendeu numa certa arrogância triunfalista kitsch para com os seus detratores conterrâneos. Mas estes não desarmaram, de modo algum. Após um primeiro momento de estupor e raiva impotente, cerraram os dentes. Reagruparam-se, mais numerosos, mais decididos, mais mentalizados e doutrinados, menos escrupulosos.

Boaventura não se empenhava por prazer neste jogo do gato e do rato com os seus inimigos. Simplesmente, não havia alternativa para ele, enquanto português. Para que pudesse manter a sua posição ativa como intelectual público escutado, a nível internacional, vivendo em Portugal, tinha que defender a sua posição de professor universitário. Não podia esperar poder retirar-se um dia para a montanha e viver de direitos autorais ou de outros rendimentos não salariais. Isso talvez possa acontecer em França, no Reino Unido, nos E.U.A., Canadá, Austrália, Japão, no espaço germânico, na Escandinávia e no Benelux, mesmo, porventura, em Itália, Irlanda, Espanha, México, Brasil, Índia ou África do Sul. Em Portugal está fora de questão. Ora, justamente, neste país, um professor universitário de esquerda militante só poderá manter a sua posição sendo excecionalmente prestigiado internacionalmente. De outra forma será escorraçado inevitavelmente, sob os mais variados pretextos. Boaventura estava postado numa esteira de movimento perpétuo, em que dava passadas cada vez mais apressadas para se manter, esforçadamente, no mesmo local.

Troika, geringonça e pandemia

Por altura da viragem do milénio, Portugal aderiu à moeda única europeia. Apesar de ser um país periférico, prescindiu dos instrumentos de política monetária e cambial com que poderia, ainda assim, defender-se de algum modo das pulsões centrípetas do mercado único. Mas a fuga em frente continuou, com Portugal empenhado em demonstrar ser sempre o melhor e mais entusiasta dos alunos, no que respeita à entrega integral da sua soberania contra vaguíssimas promessas ideológicas sem qualquer suporte científico. A arquitetura final da União Europeia seria conferida pelo Tratado de Lisboa, concluído em semestre de presidência portuguesa, com o primeiro-ministro português José Sócrates (PS), a cumprimentar efusivamente o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso (PSD), com um coloquial e intraduzível “porreiro, pá!”.

O pior veio depois. A balança de pagamentos desequilibrou-se, o que foi sendo compensado com a contração de empréstimos a juros convidativos, pelo Estado, pelos bancos e pelas grandes empresas. Os credores internacionais tinham razões para confiar que, na economia do euro, o risco do incumprimento seria mínimo. Esperava-se poder pagar a dívida por meio do crescimento e com a expansão da procura interna. Mas a produtividade estagnou e os investimentos externos desviaram-se para a Europa de Leste. Os credores sentiram a presa fragilizada e os juros tornaram-se especulativos. Era preciso fazer sentir que, em última instância, as classes populares teriam de pagar, com austeridade (59). Estalou a crise dos PIIGS (Portugal, Italy, Ireland, Greece and Spain). A Grécia esboçaria, uns anos mais tarde, um gesto de rebeldia esquerdista, para logo capitular fragorosamente. Portugal esteve sempre sob firme controlo. José Sócrates caiu. A direita, regressada ao poder, com Pedro Passos Coelho, em junho de 2011, colocou o país sob tutela exterior de uma Troika constituída pelo Fundo Monetário Internacional, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu. As agências de notação financeira internacionais classificavam os títulos da dívida pública portuguesa como “lixo”.

Sob a cobertura da Troika (mas indo mais além), começou a mais desenfreada campanha de agressão social de que há memória em Portugal, desde a queda do fascismo. A regressão económica foi brutal, a partir das classes médias. A função pública foi destratada e humilhada, os idosos escarnecidos, os trabalhadores considerados parasitas e os jovens convidados a emigrar. O que é mais, Portugal acabou como formação social independente (60). Enquanto o mundo for dominado pelo Ocidente capitalista, a especialização produtiva do país, o seu modo de vida, a sua estruturação social e os seus padrões de consumo, não estão, de forma alguma, dependentes de decisões que possam ser tomadas internamente, de forma democrática ou outra. O país viverá com aquilo que entidades exteriores a si próprio decidirem atribuir-lhe, segundo as suas próprias conveniências sistémicas. “Eu vi a luz em um país perdido. A minha alma é lânguida e inerme. Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído! No chão sumir-se, como faz um verme…”

Passos Coelho ganhou as eleições legislativas em outubro de 2015, cavalgando uma onda de medo e prostração. Todavia, foi incapaz de formar uma maioria parlamentar de suporte a um novo governo. O pragmático e astuto António Costa, do PS, chegou ao Palácio de S. Bento com base num acordo de governação inédito em Portugal, envolvendo a esquerda da esquerda. Foi a “geringonça”. O PCP, por um lado, e o BE, por outro, viabilizaram o governo do PS, mediante certas contrapartidas, negociadas periodicamente, por meio das quais se podia dizer que influenciavam a governação do país, acedendo à área do poder pela primeira vez desde 1975. Boaventura viu finalmente formar-se a sua maioria de esquerda. Ironicamente, foi depois de o país bater no fundo e se submeter às piores humilhações que a esquerda se acercou finalmente da governação. E o certo é que, corrigindo-se ligeiramente alguns dos piores agravos sociais infligidos anteriormente, as coisas correram muito bem, no campo da disciplina orçamental. A situação financeira internacional tinha evoluído e os “mercados” tinham muito mais com que se preocupar do que com Portugal, isoladamente. Fosse o país entregue aos comunistas, isso não os escandalizaria por aí além, desde que pagasse pontualmente. Nada se resolveu quanto aos problemas de fundo da economia portuguesa. Simplesmente, as corridas loucas do dinheiro resolveram tomar outros rumos.

A partir de dezembro de 2019, por três anos e meio, o mundo experimentou uma extraordinária crise sanitária global, a pandemia do coronavírus COVID-19 (SARS-CoV-2) (61). Está ainda completamente por fazer a história deste evento, que envolve contornos muito nebulosos, no seu desencadeamento como no seu tratamento. O que se pode dizer com segurança é que as classes dirigentes ocidentais acederam, por esta via, a um precedente gravíssimo de tomada de poderes de emergência praticamente ilimitados, libertando, instantaneamente, recursos financeiros gigantescos, que sempre disseram, e dizem ainda, novamente, estarem indisponíveis para salvar o planeta da crise climática em curso.

Todas sabemos

No mundo ocidental, pela segunda década do novo milénio, a sensibilidade juvenil à questão sexual tinha dado uma volta de 180 graus em relação ao libertarianismo eufórico e confiante dos anos 1960. Agora são tempos de noli me tangere. A socialização sexual faz-se por telemóvel. Corpos que não tenham sido filtrados previamente por vias algorítmicas querem-se à distância. Qualquer olhar distraidamente apreciador pode ver-se julgado por conter já um princípio de agressão. De uma promessa de libertação e plenitude, a sexualidade passa antes a ser vista como uma ameaça permanente à integridade pessoal. No sex please, we’re young. Enquanto aguardamos que a Inteligência Artificial resolva de vez este problema incómodo, não estamos dispost@s a receber sugestões, propostas, conselhos ou alusões sexuais seja de quem for, muito menos dos mais velhos.

As novas gerações de estudantes do sexo feminino no CES, informadas de que o diretor emérito da escola tinha fama de ser um grande sedutor, começaram a construir e difundir dele, com turbulência juvenil, uma sinistra imagem de predador. Nisso é bem provável que tenham tido alguma assistência da parte de gente mais velha. A posição de Boaventura no CES era já contestada, com alguma acrimónia, por docentes que se reclamavam da “neutralidade” ideológica e também por certas feministas do tipo androfóbico. Embora sem responsabilidades executivas correntes, desde 2010, era muito respeitado pela direção coletiva da altura, sendo ainda visto como uma figura de algum modo tutelar.

Em 2018 apareceram umas estranhas pichagens nas paredes das cercanias da escola, umas extremamente violentas, outras carregadas de pesadas insinuações. “Boaventura violador” e “Fora Boaventura, Todas sabemos”, eram exemplos. Apagadas num dia, tornavam a aparecer no seguinte. Este homem tem então 78 anos de idade, estando ausente de Coimbra uma grande parte do ano. Sabemos o quê? As insistentes pichagens foram feitas por raparigas muitíssimo jovens, não estudantes e, provavelmente, sem idade para serem responsabilizadas penalmente e escolhidas por isso mesmo. A autoria intelectual era de um conhecido grupo (mais valia chamar-lhe gangue) incontrolável de supremacismo feminista. Havia, nessa altura, algum mal-estar na escola devido a incidentes de caráter sexual e até de alguma violência entre alunos, nos cursos de verão e em atividades extra-escolares, em especial nos célebres jantares no restaurante O Casarão (na parte em que se prolongavam pela noite dentro, sob vapores etílicos, muito depois de Boaventura se ausentar). As pichagens ocorreram na sequência de uma “Marcha pelo Fim das Violências contra as Mulheres de Coimbra”, organizada por aquele grupo.

Talvez as ativistas da tinta estivessem a responsabilizar Boaventura por estes problemas disciplinares, mas nesse caso é evidente que o faziam instruídas pelos seus adversários pedagógicos. As alunas feministas radicais consideravam-no “misógino”, enquanto autoridade científica e académica, o que é um total disparate, resultante de supina ignorância, induzida ou lisonjeada. Todavia, não tinham qualquer experiência de trato pessoal com ele. A intervenção seria tudo menos uma denúncia de agravos íntimos da sua autoria, como depois se quis fazer entender. Era a caça ao homem, pura e simples. Estas jovens feministas, eram (parte delas), alunas no CES e estavam aí em contato próximo com outros membros do seu corpo docente. As guerras eram outras, mas as pichagens, de forma oportunista, difamavam Boaventura, de forma aberta ou velada, procurando criar a partir daí uma situação de alarme público. Um importante centro de operações anti-Boaventura foi o Solar Rosa Luxemburgo, que conheci bem, no meu tempo, caraterizado então por uma rebeldia bem mais informada e criteriosa. No Ocidente, a implacável seta do tempo (há quem lhe chame o anjo da história) vai espalhando atrás de si cada vez mais destroços e entropia.

O CES adotou então um código de conduta, uma comissão de ética e um canal de denúncias. A guerra prosseguiu, de forma subterrânea, visando afastar Boaventura. Uma parte dos alunos problemáticos e dos professores contestados eram de origem africana, da área dos estudos pós-coloniais. Para além de diluir (ou extirpar) a faceta socialmente empenhada ou “ideológica” da escola, os conjurados queriam também acabar com a sua configuração cosmopolita, o que envolvia uma dose mais ou menos explícita de racismo. Foi um primeiro assalto ao poder. Não saíram totalmente vitoriosos, mas ficaram em campo bem entrincheirados, fortalecidos com as lições tiradas sobre as linhas de força ainda a vencer. Em vez de investigar e punir os desestabilizadores, optou-se por uma ilusória pacificação.

O crescente isolamento

Nos primeiros meses de 2022, Boaventura tomou algumas posições políticas que lhe valeram, novamente, graves ataques e que o deixaram numa posição de certo isolamento na opinião pública (ou publicada) portuguesa. Na sua coluna no jornal Público (62) e em entrevista à rádio TSF, apelou à demissão de Catarina Martins do cargo de coordenadora do Bloco de Esquerda, na sequência dos maus resultados registados pelo partido em eleições legislativas. Recebeu em resposta algumas estocadas sibilinas de Fernando Rosas, em defesa da dama ofendida. Com esta tomada de posição, Boaventura indispôs definitivamente contra si próprio aquela que era, em princípio, a sua base política, pois que sempre se definira como apoiante deste partido. O seu afastamento em relação a ele vinha-se já notando desde o desmoronamento da “geringonça” de apoio ao segundo governo minoritário de António Costa. O eleitorado, como ele próprio, considerou ser o BE o principal responsável pela rotura desta inédita e auspiciosa experiência governativa.

Por outro lado, em artigos no Público e no JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, defendeu ainda que a NATO era corresponsável pelo deflagrar da guerra na Ucrânia, com a sua ininterrupta política expansionista para leste e a violação dos acordos de Minsk. Isto será puro senso comum para qualquer observador sóbrio, mas causou uma enorme indignação entre a esmagadora maioria da intelectualidade portuguesa, para a qual a submissão ao imperialismo anglo-saxónico é a única atitude admissível. Levantou-se um furibundo clamor de exclusão e linchamento contra as poucas vozes dissidentes, entre as quais Boaventura se viu só, com a distante companhia do PCP. O diretor do jornal Público dedicou-lhe um editorial violentamente insultuoso e delirantemente guerreirista (63). Estes sipaios intelectuais são frequentemente os maiores fanáticos, sobretudo quando se julgam encarregados de alguma bancada.

Esta questão vinha acrescer, aliás, à posição pública por si assumida, três anos antes, em defesa da Venezuela contra o assédio da operação Guaidó. Boaventura dissidia, francamente, das posições do Bloco de Esquerda, em política nacional e internacional (64). Estava isolado politicamente e também no panorama mediático, de onde pouco depois foi expulso. O Público é a extrema-esquerda no espetro da grande e média imprensa nacional. A partir dele é tudo mais à direita. Consequentemente, na imprensa e na generalidade das redes sociais, passou a ser considerado um maduro-putinista completamente desacreditado. Estava do lado errado no alinhamento forçado em curso para uma III Guerra Mundial.

Sem beijar ritualmente o anel Churchill, e de todos os seus sucessores, de aquém ou além Atlântico, ninguém tem direito à palavra no espaço público português (65). Que difícil é lembrar que houve tempos em que aqui se clamou bem alto contra a pérfida Albion. Contra esses eternos amigos de Peniche, assassinos de Gomes Freire de Andrade numa noite de luar (66). “Pirata d’unha comprida! Velha mãe de rapinantes!… Em catraios e ordinários barcos de mesquinhos lotes, os teus avós, — os corsários, — rapinavam povos vários, que ou eram fracos, ou zótes. — Semente de salafrários! — Família de galeótes.” É certo que, quem assim clamava, fazia-o em nome de uma “heroica raça abatida” que se dedicou às mesmíssimas artes, com bem menor sucesso. Mas, enfim, é essa mesma pirata d’unha comprida que ainda aí está, bem viva, mais cínica, grosseira e despudorada do que nunca. No entanto, os nossos lusos homens de Estado, e seus comentadores oficiais, genufletem continuamente perante ela, com cada vez maior devoção e enlevo. E fazendo-o, o seu rosto como que se ilumina, com uma enorme gravidade. Segundo eles, o patriotismo bem entendido estará agora em renegar toda a tradição nacional, para rastejar beatificamente perante os nossos senhores, em nome do homem branco, devidamente declinado em todas as suas gradações hierarquizadas. São dedicados eunucos, teúdos e manteúdos de bandoleiros extractivistas, exploradores, agressores e genocidas. “Se alguém se engana com o seu ar sisudo, e lhes franqueia as portas à chegada…”

Deixemos, porém, de lado os carreiristas. Mesmo entre gente de consciência se faz sentir esta adoração pelo domínio anglo-saxónico. Na submissão ao império estará, assim se nos garante, toda a hipótese de liberdade neste mundo. Isto parece (e é!) um vulgar passe de novilíngua orwelliana mas tem se revelado tremendamente eficaz, ao nível das classes médias ilustradas em todo o mundo. Em Portugal também, mesmo na chamada esquerda da esquerda. Para o homem de rebanho (passe a expressão nietzscheana), é como se o predador supremo da cadeia concentrasse em si as virtudes mais refinadas e garantisse as maiores liberdades aos seus súbditos. Há, pois, que, em nome das liberdades outorgadas pelo império, combater os “demónios” do nacionalismo. O nosso, entenda-se, não o dos senhores, que a ele têm todo o direito.

Entretanto, a liberdade sem predadores – e contra eles – é hoje, finalmente, uma hipótese real, que se tornou muito mais aliciante para os povos, os quais nunca dispuseram de quaisquer possibilidades de se fazer admitir sorrateiramente, em bloco, à mesa do banquete. É só para estes (poucos) comensais e foliões do apocalipse, qualquer que seja o seu tom de pele, que as liberdades imperiais sorriem. Querem sempre mais delas para si próprios, o que implica, necessariamente, menos para os demais, como eles bem sabem. “Reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”

Com que extrema facilidade se esqueceu que os ainda hoje senhores do mundo (não por muito mais tempo) são os velhos senhores do estupro colonial, do genocídio em todos os azimutes e da escravatura. A sua última era dominante inaugurou-se com Hiroxima, envolvendo a sistemática e incansável depredação de toda as condições essenciais à reprodução da vida humana neste planeta.

Vladimir Putin é, assim, de momento, a exemplo de muitos outros anteriores, o monstro absoluto. Desde Hitler (que passou a ser o padrão modelar), tivemos já Gandhi, Mossadegh, Nasser, Castro, Hussein, Khomeiny, Khaddafi, Mugabe, Chavez/Maduro, Assad pai e filho, os três Kims, etc.. E tamanha é a naturalização do domínio anglo-saxónico que quase ninguém se apercebe de que estas demonizações são construções do aparato de propaganda e contrainformação imperial, difundidas insistentemente, ao longo de décadas, pelos seus grandes meios de comunicação social. É bem mais fácil ludibriar alguém do que convencê-lo de que tem estado submetido a um logro, desde o berço. O único estadista russo com boa imprensa no Ocidente será aquele que entregar a sua pátria inerme à pilhagem e à servidão. Isso está cada vez mais distante. O império anglo-saxónico começa a abrir tamanhas brechas que cada vez se torna mais difícil naturalizá-lo. Não vêm longe os tempos em que os turiferários vão ter de se penitenciar pela ridícula figura que fizeram. Com alguma sorte e desplante, enfim, alguns tentarão certamente simular que nunca a fizeram, já que a desmemória abunda.

Operação #Metoo ou a blitzkrieg difamatória

Boaventura estava, pois, visivelmente enfraquecido aos olhos dos seus numerosos inimigos. Era a altura propícia para lhe desferir um golpe aniquilador, sem que ninguém se aprestasse a acorrer em sua defesa. O PCP, naturalmente, nunca o faria. Envelhecido, estava completamente sozinho e por sua conta. O movimento #MeToo alvoroçou o espaço público, ao nível mundial, com histórias dos mais variados tipos de condutas sexualmente impróprias. Naturalmente, só diz respeito a pessoas famosas e de classe média-alta que a elas, de algum modo, se associou. Tem servido apenas para arruinar reputações e ostracizar, segundo as regras espetaculares dos “reality show”, tendo nulo efeito educativo, formador, preventivo ou dissuasor. As verdadeiras vítimas, que são as mulheres trabalhadoras, por todo esse vasto mundo, continuaram esquecidas, a sofrer as suas humilhações em silêncio. Os seus casos têm nulo interesse mediático.

No ano seguinte, em abril de 2023, a editora britânica Routledge publicou um volume coletivo em que, numa primeira impressão (retirada depois à pressa), se incluía um artigo difamatório, o qual, sem mencionar nomes nem lugares, era fácil e indeclinavelmente identificável como sendo dirigido, em primeira linha, contra Boaventura (67). Plantar um artigo tão medíocre e desqualificado numa editora tão prestigiada como a Routledge, sujeita a apertado peer review, não está ao alcance de uma organização qualquer. Confrontada com uma carta de duas prestigiadas académicas feministas norte-americanos indignadas com este lapso, a editora retirou prontamente o livro de circulação. Um “coletivo de vítimas” de assédio académico começou a publicar uma série de cartas abertas anónimas (68). E prontamente apareceu um manifesto assinado por 850 académicos e outros profissionais destacados, em todo o mundo, a apoiar as autoras do artigo contra a “censura” da editora (69). Isto não surge assim subitamente, do nada, nem estaria ao alcance de qualquer coautora do artigo ou autoproclamada “vítima” promover uma tal mobilização. “Todas sabemos”, repetiam @s signatári@s. Quer dizer, tod@s passam-palavra da difamação, sem mais averiguações e com o coração a latejar da mais virtuosa indignação. O mesmo fez a generalidade da imprensa portuguesa, naturalmente, porque, para além de visceralmente anti-esquerdista e anti-intelectual, está permanentemente em estado de alerta para ataque predatório instantâneo face a qualquer sinal de escândalo, para mais sexual.

No CES, a oposição a Boaventura passou então à insurreição aberta, apossando-se da direção da escola por meio de eleições ad hoc. A histeria das senhoras era indescritível. Era com se Boaventura fosse um velho sátiro que lhes infundisse um terror pânico, que lhes dava uma ânsia desmedida de se protegerem a si próprias, às suas filhas, às suas pupilas. Protegerem-se dele próprio e também da arrogância dos negros por ele promovidos e protegidos, naturalmente. Conhece-se à légua o portuguesito arrivista, reaça, preconceituoso e atrasado mental, por muito que queira hipocritamente protestar a sua adesão a ideais generosos e progressistas, inclusivamente adornando-se com pesados berloques de esquerda. “Sabes, leitor, quem sofre tanto ultraje, cercado de um tropel de franchinotes? É o autor do soneto: é o Bocage!”

O CES institui uma comissão de inquérito independente para averiguar todos os tipos de má conduta que possam ter ocorrido na escola. Boaventura suspende-se provisoriamente da instituição, para facilitar as inquirições. A direção do CES passa para a comunicação social a ideia de que ele foi suspenso compulsivamente. Começam os cancelamentos. Ouvidos todos os queixosos, visados e respetivas testemunhas, o relatório final é inconclusivo, não dando como provadas culpas de ninguém em particular. Havia apenas, na instituição em geral, certos “padrões de abuso e assédio”. Consuma-se então o golpe de mão. A nova direção da escola pede desculpa às vítimas, quando, justamente, não se tinha apurado a existência de quaisquer vítimas. Boaventura demite-se do CES, em protesto (70). A direção do CES consegue novamente transmitir para a comunicação social a ideia de que foi ele a ser demitido. Perante a confusão instalada, e face ao tom militante e soezmente difamatório adotado pela generalidade da comunicação social portuguesa, avoluma-se a onda de cancelamentos em universidades e organizações internacionais em que Boaventura participava. Foi uma bola de neve difamatória impelida inicialmente e conduzida em todos os seus tramos por mão profissionalizada na manipulação da opinião pública.

E de pronto apareceram, então, 13 mulheres 13, de várias partes do mundo, a assinar a sexta carta aberta do “coletivo das vítimas” (agora, finalmente, já não anónimas), acusando Boaventura de diversos tipos de assédio, inclusive sexual, abuso de poder, discriminação de género e extrativismo intelectual. Exigia a demissão imediata de Maria Paula Meneses e Bruno Sena Martins, professores de origem africana da confiança de Boaventura. Esta sexta carta não tem nada a ver com as anteriores. É uma peça extensa, estruturada, de tom violento e extremado, próprio da literatura forense, da responsabilidade de uma especialista brasileira em “advocacia feminista”.

É claro que nada nestas ocorrências tinha qualquer ponta de espontaneidade. Havia, seguramente, um posto de comando, em contínua laboração, provavelmente um desses escritórios de advocacia ou gabinetes de relações públicas que gravitam da área do poder, com sede em Lisboa, naturalmente. Gente do CES passaria por lá, ocasionalmente, mantendo-se em contato de forma permanente. Pairando acima, pode ter havido ainda uma organização estrangeira de muito maior dimensão e recursos. Num qualquer desses pontos se terá orquestrada uma alargada rede de contatos, nacionais e internacionais, estabelecida e apalavrada há já bastante tempo. Pelo menos desde a famigerada época das pichagens. Tudo com o propósito, que se arrastava já há dezenas de anos, de assassinar o caráter de Boaventura de Sousa Santos, expulsá-lo da Universidade, negar-lhe o acesso à palavra em público e desacreditá-lo intelectualmente, para sempre. Tudo isto cai diretamente sob a alçada da lei penal, como associação criminosa, mas trata-se, na verdade, da esterqueira corrente na sociedade burguesa, que muito raramente se verá envolvida nessas contingências. Sendo uma iniciativa portuguesa, alguém pagou, seguramente, substanciais despesas e honorários por todos os “serviços” de coordenação deste empreendimento. A menos que tenha sido uma requisição da própria embaixada dos E.U.A. (porventura sensibilizada pelo furibundo editorial de Manuel Carvalho no Público), caso em que o governo certamente assumiria os encargos. É assim que acontece em pequenos estadozinhos vassalos.

O ambiente político nacional, na sequência do derrube do governo de António Costa, em abril de 2024, conheceu a uma marcada inflexão fascizante. O grupo de pressão ideológico centrado na revista e rádio Observador marca agora o tom em toda a comunicação social, pretendendo destruir ou descaraterizar completamente o Partido Socialista. A direita neoliberal é agora única linha legítima de governação. A esquerda intelectual é considerada uma praga que deve ser implacavelmente erradicada. Uma magistratura cúmplice, trabalhada na sombra, é instrumentalizada para todo o tipo de conspirações antidemocráticas e contra o Estado de Direito. A extrema-direita populista do partido Chega assoma, bem financiada e instruída, começando a ter resultados eleitorais muito relevantes. A grande burguesia nacional está exasperada com a democracia (sobretudo após o episódio da geringonça) e vê, com alívio, que a normatividade democrática vai enfraquecendo a olhos vistos entre as grandes potências ocidentais.

Durante muito tempo julgou-se insensatamente que o povo português estaria imunizado contra a demagogia da extrema-direita, por ter sofrido uma longa ditadura fascista. Infelizmente, isso nunca correspondeu minimamente à verdade. Com a aparição de um medíocre aldrabão de feira, rapidamente o país se pôs a par das tendências ocidentais nessa matéria, face a uma pressão imigratória ainda relativamente moderada. Mais do que isso, descobriu-se que o apego à democracia é afinal muito ténue numa fração importante da população. Para muitos portugueses situados no terço inferior do nível de instrução (que as sucessivas ondas contrarrevolucionárias foram alargando), haver quem mande sem discussões, como lhes parece natural, é preferível à feira dos discursos políticos contraditórios, cujo alcance lhes escapa por completo, causando-lhes uma enorme raiva impotente. Ademais, essa livre discussão política é, justificadamente, em parte, percebida por eles como sendo insincera, e, de forma distorcida (por intervenção da propaganda neofascista), como ocasionadora ou propiciadora de corrupção.

Amar este país, no seu conjunto (para além das amizades que nele se fazem e das afinidades luminosas que nele se descobrem; para lá dos ambientes de genuína sociabilidade popular, que se tornam cada vez mais rarefeitos), não é tarefa fácil. Provavelmente nunca foi. Em Portugal, a inveja é sempre uma presença constante, cortante, obsessiva, aflitiva. Inveja de quem é belo, de quem é culto e informado, de quem raciocina e se expressa de forma elegante ou profunda, de quem é trabalhador e diligente, de quem tem sentimentos generosos e altruístas. Quando alguém se vê reconhecido publicamente por algum destes méritos, desencadeia-se de imediato uma tremenda (se bem que largamente subterrânea) onda sísmica de despeito invejoso. É assim em todos os estratos sociais urbanos, embora, valha a verdade, piore significativamente nos superiores. A inveja de quem possui extensos bens materiais, curiosamente, está largamente reservada para as relações de vizinhança. Seria necessária uma capacidade de raciocínio abstrato fora do alcance da maioria, para apreender a noção de exploração e formar convicções sociais com base nela. Neste domínio, o PCP tem se visto constantemente a pregar no deserto, de forma clara e pacientemente insistente, como é seu timbre. Mais depressa se topam obscenas manifestações de despeito social dos ricos para com os pobres. A inveja de cima para baixo é uma das grandes constantes nacionais.

Treze mulheres acusadoras é um número calculado para ser esmagador. Para o leitor ou espectador distraído isto bastará como indiciador de culpabilidade. Na verdade, estas mulheres foram arregimentadas num universo de centenas, senão milhares que tiveram contatos com Boaventura. Nenhuma delas teve relações sexuais com ele. Ora, ao que tudo indica, Boaventura manteve relações sexuais com um número muito significativo de mulheres. É bastante revelador que as autoproclamadas “abusadas” não se encontrem nesse número. Na verdade, só duas delas (uma ex-doutoranda, já atrás mencionada, e uma outra mulher, alheia ao meio académico) o acusam de ter tomado alguma iniciativa que, no seu entender, revelou intencionalidade propositiva de estabelecimento de relações pessoais que poderiam ir nesse sentido. “Não sei qu’em vós mais vejo; não sei que mais ouço e sinto ao rir vosso e falar; não sei qu’entendo mais, té no calar, nem quando vos não vejo a alma que vê. Em verdade não sei; nem isto qu’anda antre nós: ou se é ar, como parece, se fogo doutra sorte e doutra lei.”

A grande maioria das acusadoras, basicamente, serviu-se apenas do facto de ser mulher para acusar. Uma queixou-se de um toque numa perna, outra de que, ao cumprimentá-la, ele lhe dava beijos demasiado próximo da boca (como se não lhe tivesse sido possível corrigir isso), outras nem isso. Uma leitura corrida dos documentos coligidos por Boaventura em sua defesa revela imediatamente que um número muito significativo destas mulheres teve um fascínio por ele, nalgum ponto da sua vida, que depois, compensatória ou oportunisticamente, se resolveu desta forma, provavelmente sob efeito de incitamento exterior. Noutras avulta mais a frustração profissional. Algumas nem sequer tiveram qualquer contato significativo com ele (71). Não se vislumbra qualquer lógica para a sua presença ali, a não ser a de que os gestores do processo julgaram imprescindível encher um pouco mais o saco. Parece-me estar a ouvi-los fazer um apelo à “coragem” das espantadas recalcitrantes, para as convencer a participar numa “luta muito difícil”, contra um monstro, cujas inúmeras vítimas, pela sua maior parte, se mantêm terrivelmente intimidadas… Mundo cão, este, não há dúvida!

Bem espremido todo este embrulho acusatório, temos assim, por fim, duas propostas de namoro, absolutamente pacíficas, de boa fé, sem qualquer pressão ou quid pro quo, feitas com o propósito de ser agradável, sem nenhum convencimento ou arrogância. As recusas, ainda que surpreendentes, nas circunstâncias dadas, foram aceites com todo o respeito e naturalidade. Outra coisa era impensável. Haverá alguma nova corrente feminista – das variadas que hoje felizmente existem – que queira agora interditar ao homem fazer propostas de teor sexual? Aconselhar-se-ia alguma prudência nessa matéria. Criminalizar a proposta sexual é um caminho já bastante adiantado para o desastre antropológico. Para quem acha que os homens (como as mulheres) devem continuar a poder fazer propostas – discretas, amáveis e atenciosas, não insistentes – de cariz sexual, o problema talvez resida antes nas mulheres que, perante uma proposta destas, decidem imediatamente (ou até, porventura, com premeditação) vitimizar-se publicamente e tentar capitalizar, por qualquer forma, em seu proveito, esta situação passada.

De todo o modo, quantas vezes mais do que estas treze não serão as mulheres que, tendo privado de perto com Boaventura, conhecendo bem o seu estilo (podendo, ou não, ter tido relações sexuais com ele), estão agora enfadadas, senão mesmo indignadas, com a pobreza de espírito – ou, mais provavelmente, a perfídia encomendada – revelada pelas caluniadoras (porque é disso que se trata). Infelizmente, nem todas têm a coragem de Isabel Allegro de Magalhães ou de Marilena Chaui. O terreno fica, logo de início, indelevelmente marcado por quem toma uma iniciativa difamadora de grande dimensão, esmagadoramente apoiada por todos os poderes sociais, contra uma pessoa isolada, rebelde e à margem do sistema. O grande público fica convencido e os conhecidos, na sua grande maioria, intimidados.

Esta operação foi visivelmente calculada para destruir Boaventura como homem. Todavia, era tão pífia a matéria acusatória que foi possível recolher no campo sexual, que foi preciso adicionar-lhe acusações de assédio moral, abuso de poder e extrativismo intelectual. Aí sim, foi possível encontrar muito mais relatos, embora, valha a verdade, a sua credibilidade não seja muito maior. A asserção, nunca concretizada, de que alguns livros de Boaventura contêm partes escritas ou investigadas por colaboradores seus não creditados, é apenas mais um boato malicioso, sem qualquer fundamento real. Mas se é esse, sobretudo, o tipo de problemas em causa, por que razão só mulheres foram admitidas a juntar-se ao rol dos acusadores? Porque se quis manter o foco na questão sexual, que era a única capaz de captar a atenção das grandes massas espectadoras e, desse modo, aniquilar a pessoa publicamente. Nada como um boato sexual à portuguesa para fazer sensação instantânea e marcar duradouramente uma reputação (72). Encerrada a tumba da calúnia sobre a cabeça anciã de Boaventura, nem ele próprio nem ninguém iria ter a energia e a coragem para conseguir ainda levantá-la novamente.

A centralidade na questão sexual era também o meio mais expedito de cortar a ligação de Boaventura com os seus admiradores nos países capitalistas centrais, que passariam a olhá-lo, naturalmente, com a sobranceria reprovadora que normalmente reservam aos latinos. Mesmo sendo expostas insistentemente inconsistências e incongruências nas histórias, a hiper-sensibilidade da questão sexual (sobretudo entre as gerações mais novas) não permite que se restaure facilmente uma reputação assim manchada. Permanecerão sempre muitos engulhos, hesitações e repugnâncias. Os orquestradores da campanha contaram com tudo isso. O seu percurso mental criminoso é absolutamente transparente. Mas, para além disso, o modus operandi aqui em ação é típico das grandes organizações conscientes do seu anonimato irrespondível, da sua inacessibilidade e inescrutabilidade. É o poder nu e cru. Os vermes adoram-no com um respeito próximo do religioso.

Nenhuma das acusadoras avançou com qualquer queixa ou denúncia formal. Bastou-lhes lançar a calúnia perante uma comunicação social avidamente recetiva, aparentemente, pelo menos em parte, já preparada de antemão. Não passou, sequer, pela cabeça de qualquer jornalista, investigar os factos junto de testemunhas isentas, muito menos ouvir a outra parte. Isso seria uma indignidade… Os tribunais portugueses (civis e criminais) foram chamados ao assunto pelo próprio Boaventura, o que lhe valeu nova salva de impropérios. “Luto c’o bravo monstro, que me acusa, que os tigres e leões mais fero e bruto. Embora contra mim, raivoso, esgrima da vil calúnia, a cortadora espada, uma alma, qual eu tenho, não se receia a nada. Eu hei-de, sim, punir-lhe a insolência, pisar-lhe o negro colo, abrir-lhe o peito, co’as armas invencíveis da inocência.”

No seu estilo caraterístico, porém, os tribunais meteram os pés pelas mãos e escusaram-se a decidir. Não conseguiram fazer as gravações dos depoimentos das testemunhas de Boaventura (!!!???), mandaram vir mais tarde para repetir, deixaram ronceiramente passar o tempo de decisão útil, arquivaram tudo, por fim. Bastou-lhes ler a imprensa e assistir aos telejornais para saber de que lado estava aqui quem mais pode e manda neste país. Arquivadas foram, também, naturalmente, por desistência, as queixas criminais apresentadas, defensivamente, pelas acusadoras, assim que se viram, elas próprias, acusadas de difamação. A estas nunca interessou qualquer tipo de debate contraditório, muito menos judicial, com todas as garantias formais do processo penal. Talvez se tenham também, em parte, desiludido e cansado de ser manipuladas. Entretanto, Boaventura, aos 85 anos de idade, foi sujeito a um linchamento público, à morte civil e ao cancelamento generalizado, em Portugal e em todo o mundo.

“Esta é a ditosa pátria minha amada. Não. Amigos meus mais caros tenho nela, saudosamente nela, mas amigos são por serem meus amigos, e mais nada. Irrisória face de lama, de cobiça e de vileza, de mesquinhez, de fátua ignorância; terra de escravos cu pró ar ouvindo ranger no nevoeiro a nau do Encoberto. Terra triste à luz do sol caiada, arrebicada, pulha, cheia de afáveis para os estrangeiros. Terra de pedras esburgadas, secas como esses sentimentos de oito séculos de roubos e patrões, barões ou condes; ó terra de ninguém, ninguém, ninguém: eu te pertenço. És cabra, és badalhoca, és mais que cachorra pelo cio, és peste e fome e guerra e dor de coração. Eu te pertenço: mas seres minha não.”

“E Portugal, como pode ser mau e detestável, se mesmo eu que amo sobretudo o vário mundo, o amo – ao mundo – como português? A humanidade e as pátrias são uma chatice, eu sei. Mas como posso desesperar delas, desde que não sejam para mim o gesto ou as sardinhas, ou a terrível capa dos usos e costumes, da vaidade, mas uma forma de ser-se humano e solitário acompanhadamente?”

Porquê e como assim

Por todos os antecedentes que temos vindo a expor, remontando a várias décadas atrás, é evidente que esta operação contra Boaventura de Sousa Santos foi longamente planeada e politicamente motivada. É aquilo que já anteriormente qualificamos como um episódio de macarthismo de alcova. No entanto, os conspiradores não deixaram de contar com a colaboração prestimosa e até entusiasta de uma longa lista de idiotas úteis aparentemente alinhados à esquerda, que esperaríamos ver acorrer em sua defesa. Desde logo o Bloco de Esquerda, que aderiu “em bloco”, com intervenções particularmente lastimáveis de Joana Mortágua e João Teixeira Lopes. Esta atitude vai ficar nos anais nacionais da vileza e da cobardia políticas. O Livre também, pois com certeza. O jornal anarquista MAPA e o portal afro-lusófono Buala (?!) foram alguns dos participantes. É como se Boaventura fosse o “poder” e as acusadoras, de algum modo, a rebeldia.

Nada poderia estar mais longe da verdade. Quem se deixa iludir por esta aparência não tem noção nenhuma do que se passa e do que está verdadeiramente em jogo. O único poder de Boaventura é o do intelecto. O “contestatário” aqui é, simplesmente, um invejoso. Estas senhoras (ao menos as portuguesas) sabem perfeitamente que estão na mó de cima, com todos os apoios relevantes, da parte de quem interessa, à direita e à esquerda, atacando um idoso completamente só, que bajularam durante décadas, porque a ele deviam e devem as suas carreiras. Depois de terem iniciado carreira divulgando o evangelho das epistemologias do sul, olhando agora em volta, o velho mestre já não lhes interessa afinal para nada, isolado que está, cada vez mais, no seu esquerdismo impenitente. Toda a gente sabe (ou julga saber) que o futuro não passa por aí. Convém-lhes bem mais distanciarem-se dele, promovendo-se a si próprias, se possível, novamente à sua custa, agora como “vítimas”.

Podem ter passado alguns maus bocados, como toda a gente, em todo o lado. Os ritmos de trabalho eram, por vezes, apertados e exigentes. Mas esta sua vitimização de oportunidade é totalmente destituída de credibilidade. Aliás, o objetivo aqui nunca foi sequer qualquer reconhecimento ou compensação pelos seus supostos agravos, antes uma viciosa ânsia de aniquilação pura e simples do inimigo. Porque a calúnia tem esta caraterística peculiar, aliás, já vista de forma recorrente neste país: quando resulta passa a facto consumado, cessam de imediato os problemas de consciência, toda a gente encolhe os ombros, sorri de forma matreira (ou canalha), dá o assunto como assente e vai à sua vidinha. O pior é quando não pega bem… O medo aconselha assim a matar, como acontecia nos encontros em caminhos ermos da Grécia clássica (ou na Nova Guiné). E então, suas excelentíssimas senhoras doutoras, aconselhadas e incitadas pelos seus novos facilitadores de carreira, resolveram-se pela tentativa de homicídio cívico de Boaventura, para poderem prosseguir mais desafogadamente os seus notáveis percursos intelectuais, com o que todos ficaremos certamente a ganhar enormemente.

No PCP, silêncio absoluto. Não é dos nossos. Se a questão fosse comigo (que estou bem ao abrigo disso, por não ser uma personalidade pública) seria exatamente a mesma coisa, de certeza absoluta. Para que aprenda… A quem o critica, o PCP reserva infalivelmente a exclusão total da sua área de proteção e solidariedade, hoje já muito diminuta. Foi sempre assim, de forma ainda mais marcada desde a ascensão de Cunhal. Na minha idade já se é muito mais criterioso sobre o quê e de quem é que queremos ainda aprender alguma coisa. No seu melhor, o PCP é a Festa do Avante! No seu pior, pode ser uma terrível câmara de pressão de paralisia, amesquinhamento pessoal e servidão. A aspiração equalizadora confunde-se aí com a inveja. Esta é, como já vimos, uma parte muito proeminente do génio nacional. No PCP tinha de despontar também, vigorosa e obsessivamente, com um forte caráter impositivo e moralista. A solidariedade de classe, por sua vez, confunde-se com a identidade de grupo, tendo esta sempre por referência última a veneração idolátrica ao herói mítico, que é o único admitido a ostentar a sua individualidade, pairando espectralmente por cima da massa indistinta.

Tivesse Boaventura, como sempre foi esperado dele (inclusivamente por mim), alinhado com o Ocidente, na hora em que este é seriamente afrontado, renegando os seus compromissos anti-imperialistas e genuinamente universalistas, ter-se-ia jubilado tranquilamente, com todas as honrarias, nacionais e internacionais, continuando a receber rechonchudos beijinhos a salamaleques de toda esta gente, até ao fim da vida. Não foi esse o caminho que escolheu. Pesou mais a fidelidade e a coerência, na reta final do seu percurso. E isso, retrospetivamente, transformou-o num monstro para tod@s est@s carreiristas hipócritas. A memória dos momentos de confiança e intimidade – moral e, até certo ponto, física – que partilharam com o seu mentor, tornou-se-lhes insuportável. Concluíram agora, pois, que tudo isso foi, seguramente, produto de assédio e abuso de poder. Estiveram submetidas a uma relação tóxica por parte de um homem que se veio a revelar um… comuno-putinista. Que horror! Há que expurgar tudo isto radicalmente, tomar implacáveis medidas punitivas e dissuasoras, para que não se repita com mais nenhuma de nós, mulheres europeias e demoliberais, atraiçoadas na nossa juvenil e inocente generosidade. Entretanto, o que é impossível de esquecer é que nos vulcões de lama desencadeados por tod@s est@s justiceir@s, pereceu a valiosa e inocente vida de Maria Paula Meneses, a “vigilante” no dizer d@s caluniador@es, prontamente reproduzido por toda a imprensa de referência.

Tudo o que venho de relatar é apenas mais um episódio de uma das grandes constantes da história da humanidade: a luta feroz e sem quartel entre quem quer transformar o mundo e quem quer, singelamente, fazer carreira naquele que encontra disponível para tentar singrar, com o melhor proveito possível. Para estes últimos, os primeiros são sempre gente egocêntrica, presunçosa, viciosa e manipuladora. Quem fizer uma vista ao sítio institucional do CES continua a ver lá, bem reconhecíveis, todos os temas e o discurso de Boaventura de Sousa Santos, na linguagem prudente e diluída que ele próprio empregaria (73). A diferença é que agora é tudo pura retórica burguesa, que se irá esvaindo paulatinamente com o correr dos anos. Reina, finalmente, a ordem, no Colégio de S. Jerónimo e em toda a Universidade portuguesa. Destruído o “professor-estrela”, pode a mediocridade ronceira prosseguir finalmente o seu curso. Tão cobarde e inútil é ela que ainda não foi sequer capaz de operar um visível virar de página.

Para concluir, façamos um exercício hipotético. Suponhamos que Boaventura foi, em seu tempo, um abusador sexual compulsivo. Será que os seus trabalhos científicos e a sua palavra corrente, no que possam contribuir para a liberdade e emancipação do grosso da humanidade oprimida e laboriosa, deixam por isso de ter interesse? Que devem ser expurgados do nosso acervo comum de saber? Que tipo de gente é esta, à esquerda, que pensa assim e quer impor esta regra? Certamente ninguém que possa ser levado a sério enquanto servidor da humanidade, neste tempo em que esta se defronta com os mais sérios riscos existenciais. São, certamente, meros títeres no grande circo de soma zero das vaidades mercantilizadas, onde a vida se resume a aparecer ou desaparecer.

Houve um tempo em que os pensadores tinham como referência o bem comum, sendo apreciados em função disso. Agora, no mundo ocidental, presume-se que almejam exclusivamente a autopromoção, pelo que, quando o seu comportamento pessoal desilude, é apagada a sua obra, como justo castigo, qualquer que seja o interesse que esta possa ter, ou vir a ter, no futuro, para a grande maioria. Isso aí é totalmente irrelevante. Aliás, os conceitos de coisa pública e de bem comum deixaram há muito de ser operativos. Agora é cada um por si e a mão invisível por todos. Até chegarmos ao precipício, se é que não estamos já lá.

Boaventura de Sousa Santos é o mais prestigiado intelectual público português da sua geração e das seguintes, até ver. Com as suas ideias e o dinamismo das suas iniciativas e projetos, colocou o país no mapa internacional das Ciências Sociais. Para além disso, a nível mundial, é seguramente o único cidadão deste país que participa no grande debate de ideias sobre o futuro da humanidade, felizmente de um ponto de vista que procura o máximo bem coletivo para as grandes maiorias. Conceitos como epistemologias do Sul, sociologia das ausências e das emergências, império cognitivo, linha abissal, razão indolente, tradução (entre universos cognitivos diversos), cosmopolitismo subalterno, dupla rutura epistemológica, conhecimento prudente para uma vida decente, estão aí para ficar. O mundo reclama por eles, como parte do seu mais precioso património intelectual de reserva. Podem, eventualmente, contribuir para fazer a diferença nesta batalha pela sobrevivência em que estamos empenhados. Será que vamos deixar de poder contar com estes conceitos porque houve umas senhoras brancas que, beijadas na face, seguiram pelo seu caminho a magicar se isso não terá sido feito demasiado perto da sua boca? Há quem nisso faça absolutamente questão, intitulando-se muito, mas muito de esquerda. “Ó Portugal, se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato! Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo, golpe até ao osso, fome sem entretém, perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes, rocim engraxado, feira cabisbaixa, meu remorso, meu remorso de todos nós…”

 
 
 

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