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Da boa e má ventura, portuguesa com certeza II – por Ângelo Novo

Foto do escritor: Apoyo Boaventura
Apoyo Boaventura
há 1 hora
31 min de leitura

Sedução intelectual e outras


Boaventura tinha a boa ou má sina de agradar às mulheres. A sua mera presença física criava uma expetativa de gozos superlativos àquelas que são sensíveis e tomam atenção a esses sinais, que não são tão poucas como isso. Se há coisa que as mulheres reconhecem instantaneamente é um homem capaz de as amar doce e demoradamente. Numa profissão que requeria, com absoluta necessidade, contatos próximos e frequentes com uma grande quantidade de mulheres jovens, era preciso estabelecer com elas protocolos físicos muito particulares de relacionamento. Isso era, por si só, um problema real, prático e indeclinável, que havia necessidade de resolver, de uma maneira ou de outra.

Boaventura podia ter optado por jogar à defesa. Fazia-se despercebido. Como dizem os brasileiros: não estou nem aí. Podia até mesmo ter-se “dado ao respeito”. Quis antes ser generoso, afável e companheiro. Não sei se terá sido a melhor opção, a longo prazo. Pode tê-lo feito sob a influência de doutrinas sexuais libertárias, típicas do meio estudantil de finais dos anos sessenta. Haveria que libertar e desalienar a linguagem dos corpos, vítima de uma longa repressão. Sobretudo os das mulheres, naturalmente. Eu homem, tu mulher. Fomos feitos para ser irmãos e companheiros. Contemplemo-nos um ao outro, com alegria e confiança.

Por conta deste estado de espírito, nas reuniões dos doutoramentos ou de grupos de trabalho especiais, instalou-se uma grande animação. As mulheres soltavam-se com grande alacridade, dispondo-se à volta de Boaventura em aberta competição pela sua atenção. Paula Rego deveria ter adorado pintar uma cena destas. Boaventura era, para o patriarca tradicional, como um espantalho esventrado pelos pássaros, que pousavam nele com grande à vontade, em vastos grupos, debicando-lhe o nariz e os olhos. Era como que uma operação física de desconstrução da ancestral figura dominadora do homem. No entanto, no final de tudo isto, viria a ser acusado de machista. E tanto o impressionou esta acusação que chegou a fazer um mea culpa público (32). Talvez se referisse, mais concretamente, a alguns assomos de mau génio a que era atreito ocasionalmente.

Uma dessas doutorandas (que mais tarde o acusaria de assédio sexual), começou a declamar poemas proclamando que o “amava” e, por vezes, sentava-se espalhafatosamente no seu colo em público, em atividades festivas extra-escolares. Assédio, se o houve, nesse ambiente, teve-o a ele próprio como alvo, sem que ele, alguma vez, lhe tivesse posto cobro por meios autoritários. Pode ser que Boaventura se tenha sentido lisonjeado e enternecido com esta relação especial que mantinha com as mulheres. Não se sabe ao certo qual desses sentimentos predominava. Casanova entra em nós por meio de mil e uma artimanhas mefistofélicas. De todo o modo, ele foi precisamente o oposto de um predador. Ofereceu-se, como presa fácil e disponível, ao desejo feminino. Estética e afetivamente, sentia-se atraído por lhe dar livre curso, em ambiente de animação coletiva, in taberna, com canto e espirituosidade à solta, dentro uma certa tradição de boémia coimbrã. A condução do jogo era entregue à discrição delas. Atendendo a que estamos a falar, no final de contas, com o decurso de muitos anos, de algumas centenas de mulheres, isso envolveu alguns riscos, estatisticamente falando. A ocorrência de aproveitamentos oportunistas e de um ou outro episódio embaraçoso era previsível e talvez inevitável.

Em contraste com isto, as aulas normais de Boaventura eram completamente desprovidas de qualquer traço de galanteria. Nada aí se passava senão transmissão de conhecimento e reflexão conjunta. Em vão se procurará qualquer anedotário pícaro ou cortês relacionado com o seu esforço letivo. A sua vida sentimental sempre se passou integralmente em ambiente extra-académico. Dar prazer às mulheres pode tornar-se uma espécie de compulsão, como a poesia ou a utopia. Camões que o diga (33). Entretanto, do Choupal até à Lapa, Coimbra é uma cidade pequena e não deixariam de chegar ao CES alguns rumores, porventura distorcidos e aumentados, sobre os seus amores.

“E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama sentam-se e dizem: ama-nos. E ele ama-as. Desaperta uma veia, começa a delirar, vê dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado pela vida quimérica das pedras. Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas. Ele arranca os dedos armados pelo fogo e oferece-os à noite fabulosa. Ilumina de tantos dedos a cândida variedade das mulheres amadas. E se ele acorda, então dizem-lhe que durma e sonhe. E ele morre e passa de um dia para outro. Inspira os dias, leva os dias para o meio da eternidade, e Deus ajuda a amarga beleza desses dias. Até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza”.

Tudo isto, porém, seriam ainda os menores dos seus problemas, quanto ao sexo oposto. As relações de Boaventura com as suas colaboradoras intelectuais, baseadas em pressupostos de cumplicidade ideológica, tinham uma certa intimidade e entono protetor, destituídos de qualquer coação. Sem flirt e sem qualquer especial intencionalidade, esses contatos eram mantidos com um número muito alargado de mulheres e não deixavam de ser, de algum modo, sexualmente significativos, ao nível epidérmico. Talvez fosse possível, com um pouco mais de lucidez e previdência, ter evitado a criação e manutenção de uma tão extensa teia de cumplicidades silenciosas e tácitas, que deve ter causado, nalgum ponto, alguma patente incomodidade em algumas participantes. Mas não era Boaventura que promovia estes jogos, nem tirava deles qualquer proveito. Pelo contrário, gastava generosamente do seu tempo e paciência a aturar as confidências que lhe faziam. Eram elas que procuravam – e a partir de certo ponto exigiam – o ameno abrigo dessa intimidade. Ele, simplesmente, acolhia-as com bonomia, movido por um velho fundo de sentimentalidade portuguesa. “A serra é alta, fria e nevosa; vi venir serrana gentil, graciosa. Cheguei-me per’ela com grã cortesia. Disse-lhe: senhora, quereis companhia?”

O facto é que foram estas mulheres, em particular, com quem se passou três vezes nada, que viriam a revelar-se, depois, as mais tocadas pelo ressentimento. Muito em especial aquelas (e essa é toda uma outra história) que não mantiveram, ao longo da vida, os compromissos políticos e ideológicos que enquadraram e deram um certo sentido afetivo e confiante aos contatos que assim mantiveram com ele. Foi esse corte com o passado – e com as suas esperanças partilhadas – o fator principal causador do seu look back in anger.

Mas não nos antecipemos. Nesse tempo tudo corria no melhor dos mundos, num ambiente intelectualmente estimulante, complementado por uma sensualidade aprazível, amena, bem-humorada e gratificante, que se generalizava por entre os colegas. Esse era um dos fatores que atraía jovens alunos e alunas para o CES e, consequentemente, para a esquerda. Era uma peculiaridade própria deste novo Jardim epicurista. Fazia um certo contraste com a chateza pétrea, magistral e tradicionalista do resto da Academia coimbrã. Quando surgiu o Bloco de Esquerda, na viragem do milénio, ele veio aqui alimentar-se, às mãos cheias, de gente bonita, inteligente, culta, sensível e desinibida, que constituía o seu ideal de futuro. Perdida a revolução, cativemos os jovens e as portas abrir-se-ão paulatinamente aos nossos anseios de transparência, equidade e participação cidadã alargada. Na verdade, tão atrativo se tornou o CES que acabou por ser vítima do seu próprio sucesso. Os alunos e alunas afluíam não só por convicção, mas também por cálculo, ambição e porque era o que estava a dar. O gajo é bom (cientificamente, entenda-se) e abre portas de carreira. A adesão dos neófitos à cartilha da escola tornava-se, em muitos casos, meramente ritual e cada vez mais superficial.

À esquerda

Como já referimos mais acima, com os governos de Aníbal Cavaco Silva, a partir de 1985, e ao longo da década seguinte, começou verdadeiramente a liquidação final da revolução portuguesa de abril. Foi um momento particularmente difícil para quem se empenhara a fundo nessa maré avassaladora de esperança à solta. “Esta gente cujo rosto às vezes luminoso e outras vezes tosco, ora me lembra escravos, ora me lembra reis, faz renascer meu gosto de luta e de combate contra o abutre e a cobra, o porco e o milhafre. Pois a gente que tem o rosto desenhado por paciência e fome é a gente em quem um país ocupado escreve o seu nome. E em frente desta gente ignorada e pisada, como a pedra do chão, meu canto se renova e recomeço a busca de um país liberto, de uma vida limpa e de um tempo justo”.

A perspetiva de Boaventura, desde a revolução de abril, foi sempre a unificação e rejuvenescimento da esquerda, face aos novos desafios mundiais num país semiperiférico. Digamos assim: a partir da esquerda da esquerda, defende a sua unidade até ao centro. No rescaldo pós-revolucionário, essa perspetiva manteve-se, ainda que, agora, num registo mais defensivo. Nas eleições de janeiro de 1986 apoiou a candidatura presidencial da Eng.ª Maria de Lourdes Pintasilgo. Ficou para sempre pintasilguista. Em dezembro desse mesmo ano publicou, no Diário de Notícias, dois artigos propugnando uma renovação simultânea e convergente do PS e do PCP (34). Nesta sua postura política geral talvez tivesse algum peso a perceção de que a unidade da esquerda criaria condições para um ambiente político nacional mais favorável ao desenvolvimento das suas próprias atividades, de escopo nacional e internacional. Gravitou na órbitra da chamada Esquerda Democrática. Foi membro do conselho editorial da revista Finisterra. Desenvolveu uma curiosa (e a certo ponto amistosa) rivalidade com Eduardo Lourenço pelo papel de eminência intelectual da esquerda portuguesa. Era, de certa forma, neste âmbito, malgré lui-même – poeta e literato impenitente que sempre foi – o cientista contra o saudosismo e o nebuloso misticismo. Nos anos 1990 defendeu uma amnistia ampla para o processo Otelo/FP-25, o que lhe valeu polémica.

Ocasionalmente, Boaventura aceitava tomar responsabilidade em projetos governamentais. Integrou, por exemplo, a Comissão do Livro Branco da Segurança Social, criada pelo ministro do Trabalho e da Solidariedade, Eduardo Ferro Rodrigues, que esteve em funções entre março de 1996 e dezembro de 1997. Foi investigador responsável do projeto “A sociedade portuguesa perante os desafios da globalização: modernização económica, social e cultural”, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, com setenta e cinco investigadores envolvidos.

Com começo no ano de 1993, Boaventura começou a colaborar regularmente com órgãos de comunicação social portugueses, a começar pela rádio TSF e pela revista Visão. Até aí intervinha apenas ocasionalmente, na imprensa diária, no semanário O Jornal ou no quinzenário JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias. A partir de 2003 começou a ser colunista regular no jornal Público. A sua voz passa a ser escutada em todo o tipo de questões de atualidade nacional e internacional (35). No Brasil, foi colunista ocasional de O Estado de São Paulo e da Folha de São Paulo.

A convite de Carvalho da Silva (uma amizade que daria outros frutos mais tarde), Boaventura apresentou uma comunicação ao Colóquio “Sindicalismo, os Novos Caminhos da Sociedade”, organizado pela CGTP-IN e realizado em Lisboa, no dia 15 de março de 1995. Propôs a renovação do sindicalismo português, com base em novos imperativos técnicos e sociológicos, a sua despartidarização e um possível horizonte de unificação entre as duas centrais rivais. Isto vinha acrescer à renovação partidária já anteriormente propugnada à esquerda. Álvaro Cunhal acusou o toque. Era, sem dúvida, mais uma lançada desferida contra a sua particular coutada profética. Numa reunião partidária, numa cantina universitária de Coimbra, desferiu um ácido ataque ao “professor catedrático” coimbrão, que retratou como um reformista rendido à perenidade do capitalismo. A sua intervenção apareceu reproduzida no jornal Avante! de 13.4.1995. Em edições seguintes, Domingos Abrantes retomou o tema com mais precisões e detalhes.

Cunhal estava muito enfraquecido e já não era secretário-geral do PCP. Fora rendido por Carlos Carvalhas, com a sua aprovação, mas mantinha-se muito inquieto e vigilante sobre os rumos partidários. O partido sofrera um grande desgaste com ondas sucessivas de dissidências, todas de sentido social-democratizante. Havia a perceção (nada deslocada, diga-se) de que seguir por esse caminho tinha como resultado garantido a erosão progressiva, a satelização, a irrelevância e a extinção. Como sobreviver, então, garantindo a identidade histórica do partido? A resposta, achada pelo próprio Cunhal, foi: acentuando e perenizando as linhas distintivas do seu ascendente patriarcal na organização. Renovação, sim, desde que dentro dos limites do cunhalismo.

Face ao escassíssimo grau de disseminação e penetração da cultura marxista no país, a solução para manter o aparelho militante junto e coeso era reunirmo-nos todos à sombra mítica, heróica e profética do “grande homem”, em sua vida e para lá dela. O problema é que as perspetivas estratégicas de Cunhal, que nunca tiveram uma grande lucidez, estavam agora completamente falidas. A União Soviética desaparecera juntamente com o seu círculo de satélites. A democracia avançada não avançava, de modo algum. Que importa! A ideia era resistir mais uns anos. Ninguém estava seriamente a pensar ir a algum lado. Sabotado o “Novo Impulso” aprovado pelo comité central em fevereiro de 1998, Carvalhas estava sobre brasas e a prazo. Em novembro de 2004 seria substituído por Jerónimo de Sousa, uma solução aprovada por Cunhal no seu leito agonizante, aonde foi levada pelos seus discípulos mais zelosos. Agora sim, temos homem. Pedro tu és pedra e sobre ti construirei (ou, enfim, afundarei) a minha igreja.

Esta substituição de secretário-geral foi justificada com a necessidade de uma nova dinâmica mais otimista e de uma aproximação à linguagem do trabalhador português comum. De facto, pareceu assim resultar, por uns tempos. O seu significado profundo, porém, era outro e viria a expressar-se inequivocamente, muitos anos depois, com a publicação dos volumes encadernados a branco das Obras Escolhidas de Álvaro Cunhal pelas Edições Avante!. O PCP tinha agora, oficialmente, um cânone pessoalizado de pensamento político, a exemplo, aliás, de diversos outros partidos comunistas do tempo de Cunhal, na Europa de Leste. A maioria deles, aliás, já desaparecidos, o que levou os respetivos volumes (dos seus camaradas Jivkov, Honecker, Gomulka, Husák, Kádár, etc.) para as trituradoras de papel.

Os dirigentes políticos de turno no PCP serão, doravante, meros praticistas (de preferência operários), esforçados aplicadores da doutrina gravada para sempre em letra de lei. Faz-se gala e virtude de não pensar absolutamente nada sobre o que são os grandes problemas contemporâneos (da inteligência artificial ao transumanismo, da “ecocivilização” ao decrescimento, da troca desigual e das cadeias globais de valor ao cosmopolitismo subalterno e ao marxismo etnicizado), não fosse isso passar por autossuficiência e presunção. O essencial já foi pensado para todo o sempre por alguém melhor do que nós. Daqui resulta uma absoluta paralisia estratégica. Embora, taticamente, o PCP surja cronicamente associado ao partido “Os Verdes”, a sua prática é sempre o desenvolvimentismo industrial e infraestrutural mais extremo, mantendo-se tributário da mitologia da grande acumulação “socialista” dirigida por Estaline, sempre omnipresente na sua retórica e na sua estética.

O comunismo português, porém, tem uma história por demais rica e multifacetada (que as editoras do partido ostensivamente ignoram) para se deixar subsumir no vulto omnívoro e politicamente estiolante de Álvaro Cunhal. Por outro lado, é inegável que o próprio pensamento e, sobretudo, a sensibilidade de Cunhal, em muitos pontos, seriam dignos de melhor sorte e de melhor cultivo. Em vez de um camarada, devolveram-nos uma estátua de pedra, no pesado e indigesto estilo do realismo socialista. Mas ele mesmo foi, indubitavelmente, em grande parte, responsável por essa transmutação. “Que são os homens mais do que aparências de teatro? Tudo neles é representação que a vaidade guia; a fatal revolução do tempo e o seu curso rápido, que coisa nenhuma pára nem suspende, tudo arrasta, e tudo leva consigo ao profundo de uma eternidade”.

Não é crível que Álvaro Cunhal tenha sobreposto conscientemente o desejo de ser reconhecido pessoalmente pelas suas qualidades para lá da morte à possibilidade de um futuro liberto e pleno para o seu próprio povo, mas é perfeitamente razoável supor que a altíssima conta em que ele se tinha a si próprio o tenha levado a convencer-se de que um e a outra se confundiam, ou seja, que só ele detinha, em última instância, para todas as próximas gerações, a fórmula correta capaz conduzir o povo português à sua emancipação. Não apenas ele próprio terá sido uma personagem única e inigualável, como a sua época foi o tempo cimeiro e total. Não haveria, assim, que reinterpretar em novos contextos, mas simplesmente que repetir ou replicar. “Mil anos há que busco a minha estrela e os Fados dizem que ma têm guardada; levantei-me de noite e madrugada, por mais que madruguei, não pude vê-la. Já não espero haver alcance dela senão depois da vida rematada, que deve estar nos céus tão remontada que só de lá poderei gozá-la e tê-la. Pensamento, desejos, esperança, que não vos canseis em vão, não movais guerra, façamos entre os mais uma mudança: para me procurar vida segura deixemos tudo aquilo que há na terra, vamos para onde temos a ventura”.

Outro facto notável que se evidenciou a partir ascensão de Jerónimo de Sousa foi o completo abandono e renegação do pequeno esboço de reflexão crítica que se havia reunido, dentro do partido, sobre a experiência histórica da União Soviética. Não houve, afinal, quaisquer erros ou desvios a assinalar, em nenhum ponto. Foi uma derrota, ponto final. O inimigo foi mais forte e mais astuto. Há que voltar à carga, fazendo tudo exatamente igual, com mais empenho e vigilância desta vez. Na verdade, a expetativa secreta era, ainda e sempre, de uma retomada do poder em Moscovo pelo Partido Comunista da Federação Russa de Guennadi Ziuganov. Fazia-se trabalho específico político de sensibilização nesse sentido junto de imigrantes russos, ucranianos e moldavos em Portugal. Há uma fixação doentia no passado, como se só na genuflexão ritual perante ele se situe ainda toda a virtude possível nos nossos dias. Embora não seja, de todo, improvável que a Rússia volte a trilhar no futuro um rumo socialista, alguém deveria perder algum tempo a tentar explicar a estes camaradas que ninguém se pode banhar duas vezes no mesmo rio (Heráclito). Com esta disposição de espírito, como será possível cativar duravelmente a juventude para uma luta anticapitalista que esta mesmo reclama, por si própria, como sendo a do seu próprio tempo?

Boaventura ficou muito desgostoso com o ataque de Cunhal e com a representação distorcida que este fez das suas ideias (36). Deveria saber que este não ia levar a bem que se propusessem mexidas num dos pilares sustentadores do seu PCP, que é o sindicalismo militante de classe (o outro é a Festa do Avante e os seus entusiastas na juventude estudantil). Sagaz e informado como ele era, Cunhal estava já, seguramente, com o seu olho de lince cravado nele há muito tempo. Eis um novo “radical pequeno-burguês de fachada socialista”, pensava ele, sem dúvida (37). Estando, de momento, Mário Soares entronizado na Presidência da República (e sem perspetivas de regresso à política partidária ativa), não era difícil ler nas entrelinhas quem era, para Boaventura, o outro obstáculo maior à renovação e unidade da esquerda.

O Bloco de Esquerda

A revolução portuguesa de abril trouxera à superfície um grande número de organizações de extrema-esquerda, de uma forma ou de outra ativas na luta clandestina à ditadura fascista, no seu estertor final. Algumas praticavam a luta armada, como a Liga de Unidade e Acção Revolucionária (LUAR) de Hermínio Palma Inácio ou o Partido Revolucionário do Proletariado-Brigadas Revolucionárias (PRP-BR) de Carlos Antunes e Isabel do Carmo. Havia diversos agrupamentos maoistas, de sensibilidades políticas muito distintas, umas mais revolucionárias, outras essencialmente anti-PCP (38). Havia uma organização fundamentalmente de intelectuais marxistas, como era o Movimento de Esquerda Socialista (MES). Havia os troskistas-mandelistas da Liga Comunista Internacionalista (LCI). A maioria destas organizações empenhou-se com o movimento popular urbano, na toma de empresas e de edifícios, na criação de cooperativas e na constituição de embriões de um poder dual, do tipo dos sovietes ou dos conselhos operários. O PCP alheou-se, fundamentalmente, dessa via, embora tenha confluído, defensivamente, com a maioria destas organizações, numa efémera Frente de Unidade Popular, entre 25 e 28 de agosto de 1975.

Com o refluxo revolucionário e a consolidação da democracia burguesa, todos estes grupos conheceram uma certa dispersão. Os maoístas empenhados no movimento popular confluíram numa aliança eleitoral denominada União Democrática Popular (UDP), que manteve uma presença parlamentar durante alguns anos. Os outros foram mantendo a sua organização, o Movimento Reorganizador do Partido do Proletariado (MRPP), enquanto a maioria dos seus quadros foi dispersando para outros projetos, à esquerda e à direita. O MES também se foi esvaziando em levas sucessivas, com a maioria dos seus membros a acabar no Partido Socialista, onde alguns tiveram um lugar de grande destaque. Dissolveu-se oficialmente num jantar em 1981 (39). O PRP-BR envolveu-se em peso na aventura armada das FP-25, dissolvendo-se em 1980. A LUAR dissolveu-se logo em 1976 e a maioria dos seus membros mais destacados entrou para a órbita do Partido Socialista. A LCI fundiu-se com uma organização menor para formar o Partido Socialista Revolucionário (PSR), que, sob a direção de Francisco Louçã, se fazia notar sobretudo pela sua imprensa criativa e por campanhas de causas entre a juventude.

No ano de 1999, a UDP e o PSR – ultrapassando inimizades históricas que remontavam ao crime de Coyoacán, em 1940 – resolveram unir esforços com vista a recuperar uma presença na Assembleia da República, que escapava à extrema-esquerda desde 1980. Como terceiro parceiro disponível encontraram a Política XXI, que era uma dissidência do PCP, dirigida por Miguel Portas, também com uma forte presença na imprensa e na cultura juvenil. Outro fundador foi Fernando Rosas, professor universitário de História, ex-MRPP que se aproximara do PSR. Denominado Bloco de Esquerda (BE), o pacto propôs-se “começar do novo” e conheceu o seu primeiro êxito nas eleições legislativas de outubro de 1999, com a eleição de dois deputados pelo círculo de Lisboa. No hemiciclo de S. Bento, exigiram ficar colocados à esquerda do PCP.

O BE logo se constituiu em partido, enquanto as suas partes constituintes se foram diluindo em meras associações. A sua declaração de princípios condena asperamente a globalização e faz profissão de fé na democracia como caminho para o socialismo, na defesa da segurança e dignidade do trabalhador, na salvaguarda do ambiente e no aprofundamento da participação cidadã. Simultaneamente, como se estivéssemos no mesmo plano de magnitude e emergência, promete a despenalização do consumo de todas as drogas (40). Até ao final da década seguinte o partido consolida a sua presença na Assembleia da República (com um máximo de dezasseis deputados), garantindo presenças também em regiões autónomas e no parlamento europeu. Nas eleições autárquicas, nunca conseguiu garantir uma presença relevante na administração local.

Estava constituída uma segunda esquerda, em rivalidade com o PCP. Boaventura não esteve entre os subscritores da declaração fundadora nem foi alguma vez candidato ou mandatário eleitoral do Bloco, mas nunca fez segredo de que era votante regular neste partido, desde que ele se apresentou ao sufrágio pela primeira vez. A sua voz como politólogo e cientista social tinha algum peso nele. Manteve relações de amizade e cumplicidade política com Miguel Portas, que se prolongaram até ao falecimento deste. Estávamos perante um partido que se afirmava socialista, anti-imperialista e crente na centralidade da classe trabalhadora. Todavia, a sua presença no movimento sindical foi sempre muito ténue e dispersa. Na vida local, não tinha expressão. Nunca criou uma rede nos movimentos sociais e de consciência como a que o PCP sempre foi mantendo. Desde o início dependeu sempre da sedução discursiva sobre camadas juvenis, sobretudo escolarizadas, transmitida quase em exclusivo por intermédio dos grandes meios de comunicação social. Isto era uma grande fragilidade e deixou-o refém dos favores dos monopólios mediáticos. As suas causas passaram a ser sobretudo em questões de costumes, identitárias, estéticas ou de moralidade social.

Também eu votei no BE ocasionalmente, até uma certa altura. Havia lá muitos bons companheiros meus, em posições marginais e sem influência. A única iniciativa do BE que tenho acompanhado regularmente é o festival de cinema documental Desobedoc, onde tenho visto magníficos filmes. Em termos de postura política geral, porém, este festival não tem qualquer comensurabilidade com as posições públicas correntes do partido. Faz parte de uma certa imagem de marca que o BE quer preservar perante a sua velha militância, aliás em flagrante contradição com a imagem que procura difundir pela comunicação social. O mesmo se diga da sua universidade de verão, que ainda se chama Fórum Socialismo. Muito convenientemente, o BE não tem um programa político geral, só programas eleitorais.

O problema de fundo do BE é aquilo que se chama falta de agência transformadora. Começar de novo, sim, mas com quem? Que forças sociais é que podem, neste país, ser acumuladas, organizadas e doutrinadas, com vista a operar uma rutura política em direção ao socialismo, se é esse de facto o fim (41)? Se estamos a falar apenas da rebeldia generosa da juventude, não vamos longe. Isso é uma coisa muito sazonal, que não deixa quaisquer marcas no terreno, não forma uma vanguarda militante nem regista ensinamentos de luta transmissíveis de geração em geração. Como os festivais de verão, serve, tão só, para estimular vaidades fátuas e promover carreiras bem integradas no sistema. É, enfim, o berloque de esquerda de que falava o programa “Contra-informação” da RTP.

Por um lado, o BE tinha de tomar como base de recrutamento (essencialmente eleitoral), uma massa que já estava formada nos preconceitos incutidos pela informação burguesa, afiliada no universo mediático ocidental de dominação anglo-saxónica. Por outro lado, o próprio propósito de “começar de novo”, com demarcação total do velho socialismo, opaco e fracassado, empurrava o partido para a defesa impossível de vias limpas e transparentes (ou seja, não confrontacionais) para o socialismo. O BE advogou assim, incansavelmente, o derrube do sistema económico socialista em Cuba, na China, na Coreia do Norte, no Laos ou no Vietname, abraçando todos os seus “dissidentes” e aplaudindo todas as revoluções coloridas aí intentadas ou a intentar pelas agências de segurança ocidentais. Talvez para limpar de vez o velho entulho socialista e fazer aí, sob a égide da democracia ocidental, um socialismo novo, bonito, liberal e impecável. Mas o que o BE quer fazer terá naturalmente de se conter sempre nas margens do sistema burguês e imperialista, com o qual nunca quis romper, porque na verdade dele depende. Só aí é que, a seu ver, tudo pode ser transparente e indisputavelmente progressivo. In Occidentis Salus.

O BE esteve também sempre na primeira linha da denúncia, senão mesmo do apelo ao derrube das repúblicas árabes do Iraque, da Líbia e da Síria, da democrática república islâmica do Irão, da democrática república bolivariana da Venezuela, da (até agora) democrática república sandinista da Nicarágua, dos atuais regimes político democráticos russo, argelino, libanês, angolano ou sérvio. Ostensivamente para aí criar impolutas democracias westminsterianas, quando toda a gente que tem dois olhos na cara (ou nem isso) sabe que o objetivo do intervencionismo imperialista é aí a destruição do Estado, a partição, o saque, a guerra civil, a fome e o colapso demográfico. Mas o oportunismo e a desvergonha falam mais alto. Nem, Camenas, também cuideis que canto quem, com hábito honesto e grave, veio, por contentar ao rei no ofício novo, a despir e roubar o pobre povo.

A incomodidade e, por vezes, a contestação que o BE traz para a discussão sobre temas internacionais é sempre na linha do que o imperialismo pretende. Denuncia as contradições do imperialismo, com o objetivo de que este defenda, de facto, os valores humanitários que diz prosseguir. É uma espécie de consciência crítica de vanguarda do imperialismo, alumiando o caminho que este ainda haverá de trilhar um dia, sem dúvida, quando, com o seu contributo, estiver mais democraticamente amadurecido. Participa plenamente na ideia de que o mundo dominado pelo imperialismo é o da liberdade e da transparência, que é necessário expandir continuamente, contra a opacidade retrógrada dos recalcitrantes particularistas. Toma o partido da guerra imperialista, sem hesitar um segundo, deixando-se ciceronear na linha da frente do “mundo livre” pelos gauleiters nazis ucranianos. As eleições promovidas por súbditos do império são, para si, sempre sagradas e imaculadas, enquanto as outras são sempre farsas encenadas pelos respetivos “regimes” (a um governo hostil ou distante face ao imperialismo ocidental chama-se uma “ditadura” ou um “regime”).

Todos os “tiranos” denunciados por este partido (42) eram os que o Ocidente detestava ou dos quais se queria ver livre, depois de deles se ter servido durante décadas. Ao serviço do rolo compressor da globalização neoliberal, o BE enfileira numa ampla teia ocidental de esquerdistas dóceis e ONG’s temáticas que propõem ao imperialismo hipóteses de intervenção, aqui ou acolá. Os imperialistas agradecem a colaboração prestimosa e ponderam devidamente, segundo os seus critérios próprios, naturalmente. A visão humanística global de uns e de outros é afinal a mesma. Se o BE pensa tudo dentro da caixa do sistema imperialista (inclusivamente o europeu, onde se vai fazendo cada vez mais federalista), não se vê como pode apregoar de boa fé que aspira ao socialismo.

O objetivo estratégico de uma sociedade sem classes foi sendo substituído paulatinamente pelo de uma sociedade sem sexismo, racismo e homofobia. O BE continua a marcar uma presença ritual na luta económica e social, mas o seu verdadeiro combate passa-se cada vez mais no campo das quotas de representatividade e da polícia dos códigos de linguagem, que são preocupações incompreensíveis para as classes populares. Esta substituição da luta de classes pelo wokismo, no mundo ocidental, é, aliás, carregada de densos pronúncios de declínio antropológico. Tem um efeito quase cómico, a virtuosa indignação, o elaborado perfecionismo – para não dizer o retorcido barroco – de todas as estratégias discursivas e processuais concebidas para anular a menor sombra de discriminação ou desequilíbrio de poder com base nas auto-percebidas, auto-construídas e poliédricas identidades sexuais (43). Em vão, porque sexo é poder e no amor as trocas são sempre desiguais. Há aqui um flagrante desencontro de perspetivas, ao nível mundial. O progressista ocidental vê-se a trilhar intrepidamente novas cumeadas civilizacionais igualitárias, algum dia destinadas, sem dúvida, a ser percorridas por toda a humanidade. Para qualquer observador informado do Terceiro Mundo, tudo isto denota antes uma grande malaise civilizacional. São sintomas de gado doente, embriagado pelo consumismo, individualista, exibicionista, hedonista, ateu, sem qualquer capacidade de sacrifício, hipersensível a uma sexualidade tão alardeada, criticamente escrutinada e hipervalorizada simbolicamente como sub (e mal) praticada.

Enquanto esperamos pelo socialismo (qual Godot), seja o que for que isso signifique, dentro desta mesma linha de esquerda dócil e acomodada, o BE estará sempre sujeito a ser ultrapassado por outros mais atrevidos ainda, na grande corrida ao extremo centro com uns leves tons de garridice contestatária juvenil. O socialismo (como a democracia) ocidental sustentou-se sempre da exclusão e da exploração da grande maioria da humanidade. Sob desafio, em crispação defensiva, o Ocidente, nesta fase histórica, encaminha-se muito mais naturalmente para o neofascismo do que para qualquer tipo de socialismo. É nesse rumo que será curioso saber se o BE (ou o que restar dele) estará ainda disposto a seguir também.

Primeiros grandes triunfos internacionais

O marxismo foi completamente banido da universidade portuguesa, a partir de meados da década de 1980. Aliás só aí entrara, de supetão, por um muito breve período revolucionário. Boaventura nunca foi um marxista muito canónico e facilmente identificável. Isso ajudou-o, sem dúvida, a escapar à necessidade de abjurar, por que muitos outros passaram, a partir de certa altura, causando-lhes dramas pessoais íntimos e transtornos nas suas relações pessoais. Boaventura sempre foi eclético, atento e, até certo ponto, participante nos modismos intelectuais do dia. Tinha uma superior habilidade e criatividade intelectual, que lhe permitiam navegar conceitualmente, sem esforço aparente, entre o marxismo clássico, a teoria crítica frankfurtiana, o pós-estruturalismo, o pós-modernismo, a french theory, o anarquismo epistemológico, o multiculturalismo, os gender, cultural e subaltern studies, a decolonialidade, etc.. Não era nenhum dinossauro comunista. Tinha um discurso superiormente performativo, pelos padrões mais impecavelmente aggiornatos, a ponto de merecer a aprovação das maiores autoridades nacionais na mundanidade intelectual (44).

No entanto, com tudo isso, manteve sempre a ideia de uma ciência interveniente no conflito social, num sentido emancipador para os oprimidos, os marginalizados e o grande número. Objetividade não é neutralidade. Há que tomar partido pelos explorados e descartados, para alargar continuamente o espaço da cidadania. “Chamam-me lá em baixo onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante. E transparente e desgraçado e vil. Quando a noite vem, criança distraída, que debilmente apaga os traços brancos deste quadro negro – a Vida. Chamam-me lá em baixo: voz de coisas, voz de luta. É uma voz que estala e mansamente cala e me escuta.” Num ambiente intelectual mesquinho e provinciano como o português, isto não poderia deixar de criar um grande despeito e um grande ressentimento entre os carreiristas puros. O que é real é racional, já Hegel o dizia. Como se atreve este cavalheiro? Não sabe ele quem manda neste país e no mundo? Porque não se agacha ele, como fazemos todos? Quem se julga ele?

Mas o pior estava ainda para vir. Assediado pelos detratores, Boaventura teve uma resposta de génio. Internacionalizou-se, cativando financiamentos da grande burguesia imperialista, dotada de alguns laivos progressistas e de humanismo universalista. Com a sua criatividade e capacidade organizativa, instrumentalizou a seu favor a má consciência dos capitalistas cimeiros, situados muito, muito acima dos seus pobres inimigos nacionais. Na viragem para o atual milénio começaram a chover os grandes financiamentos. A Fundação MacArthur dos E.U.A. financia com quase um milhão de dólares um projeto sobre “Reinventar a Emancipação Social: para novos Manifestos”. O projeto decorreu, com grande êxito, entre 1 de fevereiro de 1999 e 30 de novembro de 2001, contando também com o apoio da Fundação Gulbenkian. Envolveu trabalho de campo na África do Sul, Brasil, Colômbia, Índia, Moçambique e Portugal, explorando alternativas à globalização neoliberal através do estudo de movimentos e classes subalternas em diversos contextos geográficos, do semiperiférico ao ultraperiférico (45). Boaventura passa a ser uma garantia de seriedade e capacidade de realização para os financiadores externos e uma imprescindível fonte de rendimento e projeção científica para o CES.

Paralelamente à docência exercida na sua cidade natal, Boaventura prosseguiu, desde meados da década de 1980, uma outra carreira académica, como Distinguished Legal Scholar na Universidade de Wisconsin-Madison (E.U.A.), atividade, aliás, não remunerada, exceto nos períodos em que foi professor visitante, recebendo, como tal, uma bolsa de manutenção. A sua mulher, Maria Irene Ramalho, igualmente doutorada em Yale, sob a orientação do famoso Harold Bloom, foi também convidada para ser investigadora e professora no Departamento de Literatura Comparada da Universidade de Wisconsin-Madison, onde permaneceu até ao ano de 2018. Embora habitassem em casas comuns nas mesmas duas cidades (Coimbra e Madison), os dois esposos desencontravam-se muito frequentemente, devido às suas respetivas atividades letivas.

Durante uma grande parte da sua vida ativa, Boaventura passou assim quase metade do ano letivo no north-midwest dos E.U.A., onde tinha uma segunda residência, aliás cedida por amigos. Isso permitiu-lhe um conhecimento íntimo da grande metrópole imperialista e manter sempre uma ligação muito forte com o mundo intelectual anglo-saxónico, onde muitos dos seus livros foram sendo publicados (46), o que lhe garantiu um lugar entre os intelectuais públicos mais debatidos no mundo. Boaventura não descurava uma oportunidade para promover a sua obra, mas fazia-o de uma forma integrada com a causa, que era a sua, da emancipação humana global pela expansão da democracia.

“Reinventar a Emancipação Social” era um programa que, à altura, se enquadrava perfeitamente com o movimento criado pelo Fórum Social Mundial, no qual, aliás, participou em lugar de destaque (47). Por altura da viragem do milénio, levantou-se um grande clamor universal contra os desmandos da globalização neoliberal, que transbordou para as ruas em Seattle (E.U.A.) por altura de uma cimeira da Organização Mundial do Comércio (OMC), onde se procurava coagir sem cerimónia o Terceiro Mundo a novos pactos leoninos de comércio internacional. A cimeira fracassou e criou-se, em vez disso, um grande backlash internacional, que foi crescendo, de forma alarmante, até ao golpe das torres gémeas em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001, quando o imperialismo decidiu jogar a cartada da guerra.

No seio deste movimento por uma alterglobalização, surgiu então a ideia de criar uma réplica antípoda às reuniões anuais do Fórum Económico Mundial de Davos (Suíça), o mais público dos areópagos conspiratórios da elite capitalista mundial. A primeira reunião do Fórum Social Mundial (FSM) decorreu, com grande sucesso, em Porto Alegre (Brasil), em janeiro de 2001. Repetiu-se nesta mesma cidade nos dois anos seguintes, antes de passar a Mumbai (Índia) em 2004, regressando a Porto Alegre em 2005. Entretanto, o movimento desdobrou-se em fóruns regionais, nacionais e temáticos. De janeiro a abril de 2003, 36 milhões de pessoas saíram à rua em todo o mundo em protestos contra a invasão do Iraque. Nos anos seguintes, o movimento do FSM começou a definhar, por indefinição nos seus propósitos, face a uma teimosa e muito alargada recusa em o estruturar democraticamente, dotando-o de uma direção, um programa e uma estratégia. Muita gente sentia-se bem participando numa plataforma ampla de recusa, mas não queria entrar num movimento. Boaventura era um deles, claramente, embora propusesse, por vezes, a tomada de posições políticas claras, como foi o caso aquando do golpe contra Dilma Roussef no Brasil, em 2016. Por fim, manteve-se a unidade, sim, mas esta acabou por se esboroar paulatinamente, por falta de uma intencionalidade declarada e bem definida.

Não consigo compreender essa ideia de que, esgotada que está a modernidade, vamos agora derrubar o capitalismo, não armados com uma grande teoria, nem com uma estratégia global (isso seria, enfim, a “velha” política, que já falhou), mas instaurando pacientemente uma densa rede de diálogos interculturais e interativismos, por meio de uma universidade popular global dos movimentos sociais. Ou seja, vamos desmontar o capitalismo, peça a peça, como um puzzle, muito simplesmente, ressuscitando as ausências que ele criou e apoiando as emergências que a ele se opõem. As classes dirigentes capitalistas estão firmemente instaladas no poder, nos centros imperialistas, controlando uma extensa e brutal rede clientelar em todo o mundo. Não estão a dormir. São vigilantes, astutas e implacáveis. Saberão muito bem ver e reagir atempadamente quando sentirem que lhe estão a montar um ninho destes atrás da orelha. Nunca irão permitir nada disso. Todo este trabalho de “tradução” é essencial, sem dúvida, mas para depois de derrubarmos o capital-imperialismo.

A classe dirigente capital-imperialista terá de ser confrontada com um poder à sua altura, cuja linguagem ela entende e que a faça tremer até às entranhas. Porque falhamos uma vez, já não podemos tornar a tentar? Com a possibilidade evidente de falhar novamente, talvez melhor desta vez? Estamos ainda de tal forma esmagados pelo peso da derrota e da culpa, que não nos atreveremos, nunca mais, a enfrentar novamente o inimigo em face? Vamos agora tentar mudar o mundo sem tomar o poder, como propõe John Holloway? Transformar antes “as muitas faces do poder tal como se apresentam nas instituições e nas sociabilidades”, como diz Boaventura (48)? Fazer tudo sempre bonito e sem falhas, sem confronto, sem dor e sem distorções inesperadas aos nossos propósitos, por, na verdade, jamais irmos verdadeiramente ao choque com o inimigo? Pois bem, enquanto assim cogitamos, o relógio do apocalipse continua a contar. Faltam agora 85 segundos para a meia-noite, ao que parece (49). Alguém vai ter de fazer alguma coisa muito rapidamente.

E talvez não tenhamos sido derrotados, no final de contas. No Ocidente, sim, fomos batidos e dispersos. Mas – saboreie-se bem a ironia – a grande teoria marxista da emancipação da humanidade laboriosa foi traduzida para o chinês, desde logo por um pensador e estratega revolucionário que nunca leu nada senão em logogramas de mandarim. Pelos vistos, faz todo o sentido nesse contexto. Da sinização do marxismo chegamos ao socialismo com caraterísticas chineses e à civilização ecológica. Uma tradição/tradução de pensamento marxista vernáculo está também bem estabelecida em África e no mundo negro em geral, na América Latina, na Europa (com as suas diversas cambiantes), na Índia, Indochina e Indonésia, em diversos povos nativos e autóctones resistentes, no movimento camponês, feminista, ecologista, etc.. No mundo muçulmano, essa tradição, sendo hoje minoritária, pode entrar em aliança mutuamente fecundante com as fortes correntes de populismo religioso anti-imperialista aí bem presentes. Que pena que a ascensão da República Popular da China não tivesse podido ser acompanhada por um Fórum Social Mundial bem estruturado e organizado, com uma direção democraticamente eleita e responsável, armada com uma visão estratégica de alcance cosmopolita, atuando como a “grande potência” do proletariado mundial como sempre quiseram Marx e Engels! E nem nos faltavam pessoas com capacidade e prestígio para assumir essa direção, de Samir Amin, a Tariq Ali, João Pedro Stédile, Leonardo Boff, Walden Bello, François Houtart, John Bellamy Foster, Arundhati Roy, Alex Callinicos, Vandana Shiva, Prabhat Patnaik, Angela Davis, Cheng Enfu, entre tantos outros e outras (50).

Epistemologias do sul

A partir da viragem para o novo milénio, Boaventura começou a reunir um corpo de obra que o singulariza como um dos pensadores mais relevantes e instigantes da nossa época, em qualquer parte do mundo (51). Qualquer pessoa com os pés bem assentes na terra e com capacidade para decifrar (para além dos sucessivos véus da propaganda) o que está em jogo neste momento histórico, não pode senão concluir isso mesmo. Em Portugal, foi o único (descontados os clandestinos) que captou bem os sinais dos tempos, fazendo honra ao melhor filão da tradição cosmopolita e humanista da nação, que foi acompanhando sempre, em contra-pé, o seu precoce vezo colonizador.

Não li ainda, na íntegra, todos estes livros. Alguns são difíceis de encontrar, outros são por demais extensos e de leitura algo escarposa, por resvalarem ocasionalmente para um certo esoterismo poético, para a vertigem esquemática e metafórica, para inovações conceituais ousadas e intrincadas. Este artigo já está por demais extenso, aproximando-se a data em que terá de ser publicado. Não posso aspirar a escrever aqui nada que se aproxime sequer de uma apreciação crítica da obra de Boaventura de Sousa Santos. Do que pude ler, entretanto, posso desde já expor algumas conclusões, porventura algo apressadas, recolhidas do ponto de vista daquilo que tem sido a linha norteadora da minha própria investigação e intervenção publicística, de há longos anos para cá. Não sou filósofo, cientista nem político no ativo. Sou um revolucionário. É essencialmente desse ponto de vista que vou expor algumas divergências que continuo a ter com Boaventura, para realçar, de seguida, como este troço tardio da sua obra é, ainda assim, a meu ver, tremendamente importante.

Thomas Kuhn é fascinante mas o seu contributo está claramente sobrevalorizado e sobredimensionado na mundivisão de Boaventura. Nada nos autoriza a criar toda uma teoria da história com base na sucessão dos paradigmas do conhecimento humano. Isso é idealista em extremo. Primum vivere, deinde philosophare, como até já o velho Hobbes (qual Marx…) convinha. Na visão de Boaventura, a transição de paradigma surge como um Deus ex machina, a partir do qual decorrerão todas as nossas opções. A modernidade teria sido uma grande onda de otimismo prometaico, de algum modo ligada à expansão ocidental, agora em fase de esgotamento (porquê?), deixando caminho livre para a afirmação de uma miríade de aspirações ascendentes, compondo uma multímoda, multicultural e diversificada teia de mensagens emancipatórias, que eventualmente afogará o próprio capitalismo. A transição paradigmática é um facto, pelo qual ninguém em particular é responsável. No seu esteio, virá, não um novo paradigma totalizante, antes uma grande explosão cambriana de aspirações utópicas locais, até aqui represadas. Será uma grande onda de inconformismo espontâneo. Não disparem sobre o utopista. Os campos abertos à transformação incluem o conhecimento, o direito e o poder político, segundo um vetor que vai da regulação para a emancipação. Serão abrangidas, por todo o mundo, sucessivamente ou por conjuntos agregados, os espaços estruturais doméstico, da produção, do mercado, da comunidade, da cidadania e internacional.

Na história do pensamento social português, Boaventura enfileira mais facilmente na corrente anarquista/libertária do que na socialista/comunista (52). Separamo-nos aqui, na escolha dos caminhos para atingir objetivos que são muito idênticos. Está nele presente uma forte pulsão “não-intervencionista”. Nada de vanguardas iluminadas e teorias de acesso restrito. Nada de insurreições dirigidas, nada de leninismo. Só senso comum, facilmente partilhável por todos. No entanto, algo paradoxalmente, deposita uma grande esperança no Estado (aquele que temos, naturalmente, pois que não haverá nele qualquer solução de continuidade) como agente na transição paradigmática, cabendo-lhe prestar uma assistência providencial às novas formas emergentes de sociabilidade democrática. O socialismo, como democracia sem fim (uma fórmula que me parece particularmente feliz), teria assim como ajudante de parteiro o próprio Estado burguês, organizador e estruturador da hegemonia social contestada. Mais do que utópico, isto será um pouco ingénuo, a meu ver. Talvez tenha tido aqui a sua influência a experiência de longos anos de convívio de Boaventura com agentes estatais que lhe pareceram reformistas inteligentes e razoáveis. Mas estamos a falar de transformações revolucionárias.

Lenine foi um bravo, excelente rapaz (53). Ateou um incêndio global que grassou ao longo de todo o século XX. Estamos a precisar desesperadamente de outros como ele. A grande política é um jogo estratégico, onde se reúnem forças com vista a atingir determinados objetivos, a impor, pela luta, a outras forças. Quando esses objetivos implicam uma transformação em profundidade na realidade historicamente determinada de uma formação social, a intervenção terá necessariamente de obedecer a um exigente planeamento teórico. A sociologia, a geografia, a economia política, a teoria do Estado e outras disciplinas científicas, enquadradas pelo materialismo histórico, fornecem poderosos instrumentos que permitem conceber uma intervenção consciente das classes dominadas na moldagem do seu próprio destino. Para isso devem dotar-se de um partido político, que conduza o combate, preservando a memória e afinando constantemente a conceção estratégica geral da luta – e os recursos táticos mais adequados a empregar nela – conforme os dados que forem sendo recolhidos pela prática. Ninguém agora é obrigado a suportar passivamente os desmandos das classes dirigentes porque sempre foi assim. Já não é verdade que tenha sido sempre assim. Foi possível produzir, no século passado, de forma consciente e com propósitos claramente firmados, um rasgão inolvidável na ordem imposta pelos senhores do mundo. Que perdura ainda, estando em vias de prevalecer. Quem vai à luta pode sempre perder. Quem não luta já foi derrotado. Quem luta de forma deficiente, com objetivos estratégicos equivocados (por inépcia e/ou por reverência nostálgica), insuficientemente definidos, ou tendo reunido meios desadequados para a sua prossecução, vai vaguear de insucesso em insucesso, até à derrocada final, que pode envolver uma catástrofe e graves involuções sociais.

A teoria, porém, não é tudo, nem há qualquer modo integralmente científico de conduzir uma transformação social revolucionária. Haverá sempre uma réstia irredutível de inspiração profética (54). É preciso que o profeta se faça teórico e vice-versa. O surgimento de personalidades proféticas particularmente inspiradas não é previsível, senão na medida em que existem épocas históricas que, clamando por elas, vão provavelmente facilitar o aparecimento dessas vocações, contribuindo para criar condições favoráveis à sua formação e desenvolvimento, inclusive mediante a comparência em cena de públicos predispostos a ouvi-las e a encorajá-las. Vivemos, sem dúvida, uma época dessas. Mais não é possível dizer. A mensagem revolucionária não surge de forma espontânea nem é partilhada instantaneamente por toda a gente. Era bonito que assim fosse, sem dúvida. Mas isso não é deste mundo. Uma teoria revolucionária, como qualquer ideia científica, gera-se, tipicamente, numa mente singular, depois de muitos anos de paciente busca mental interior. A partir daí difundir-se-á num círculo restrito, podendo, nesse processo, completar-se e aperfeiçoar-se. É sempre indispensável a presença destes portadores e difusores concretos da teoria revolucionária, sem a qual não brotará a prática dela decorrente. Chegados à prática, a teoria vai se refinar e recalibrar sucessivamente. Pode fracassar e morrer. Pode transmutar-se de uma forma quase irreconhecível.

Ao longo de todo o processo, haverá sempre níveis muito diversificados de completude e acabamento na formação de uma determinada consciência revolucionária. Na base, a multidão será mobilizada por simples palavras de ordem, criteriosamente escolhidas pela sua eficácia. Muitos futuros revolucionários estão hoje seduzidos pelo neofascismo. A vida pode ainda ensinar-lhes alguma coisa, sem que, contudo, se dê neles um salto dramático no seu nível de consciência social. Neste mundo, é assim que as coisas funcionam. O ótimo é inimigo do bom. À espera de um miraculoso processo revolucionário sem condutores e sem conduzidos, a ocasião propícia vai certamente surgir e desvanecer-se sem que nada aconteça. Nesta questão (como noutras de que trataremos mais adiante), o inveterado otimismo antropológico de Boaventura parece ter levado a melhor dele.

Se o pensamento de Boaventura não me convence, enquanto estratega revolucionário, não deixa, porém, de revelar outras vertentes e potencialidades de um valor inestimável. A retoma de uma cidadania plena para todos os povos não ocidentais, com as suas raízes culturais revitalizadas, é um objetivo civilizacional de uma premência indisputável. Há que reencontrar para eles uma linha de desenvolvimento que se interrompeu brutalmente, com a agressão colonial e com a criação da linha abissal que se lhe seguiu. Quando digo “para eles”, digo, na verdade, para todos nós. A diversidade cultural é a maior riqueza da humanidade, como a biodiversidade o é para o bioma terrestre. Que cem flores desabrochem, que diversas escolas de pensamento se confrontem! E se traduzam mutuamente e congracem entre si, em paridade e liberdade, achando soluções criativas e inovadoras para todos os problemas, em toda a parte. Se há aquisições culturais e científicas ocidentais que são, hoje em dia, irrenunciáveis – tal o materialismo dialético e histórico – o certo é que, sob o aguilhão infrene da lucratividade, o Ocidente capitalista entrou numa espiral autodestrutiva de tal forma pronunciada que a desocidentalização do mundo é, hoje em dia, um imperativo de sobrevivência.

Poderá pensar-se, sem errar, que a descoberta, ou seja, a valorização hermenêutica e política, das epistemologias do sul, estava no ar dos tempos. O certo, porém, é que foi Boaventura quem lhe deu uma primeira expressão acabada e propositiva. Não sendo um homem do sul (nem propriamente do norte), encontrou depositada em si de uma tradição nacional viajante e curiosa. “Há mil anos de memórias a contar, ai, cidade à beira-mar. Azul. Hoje, num vento do norte, fogo de outra sorte, sigo para o sul. Sete mares.”

“Deus quis que a terra fosse toda uma, que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te e foste desvendando a espuma, e a orla branca foi de ilha em continente, clareou, correndo, até ao fim do mundo, e viu-se a terra inteira, de repente, surgir, redonda, do azul profundo. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.”

“E eu sou a liberdade dum perfil desenhado no mar. Ondulo e permaneço. Cavo, remo, imagino, e descubro na bruma o meu destino que de antemão conheço: teimoso aventureiro da ilusão, surdo às razões do tempo e da fortuna, achar sem nunca achar o que procuro, exilado na gávea do futuro, mais alta ainda do que no passado.”

(continua)

 
 
 

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