Um processo kafkiano – o processo contra Boaventura de Sousa Santos – por Júlio Marques Mota
- Júlio Marques Mota
- 3 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 11 de set. de 2025
Sempre que leio um texto de Boaventura de Sousa Santos fico extremamente incomodado e interiormente muito agitado, porque sinto a crueldade da situação que lhe foi criada: cancelado em toda a extensão da sua carreira académica e à escala planetária. Curiosamente, no caso português, isso acontece num momento em que a Universidade está a cair a pique, quer do ponto de vista científico quer do ponto de vista moral, isto é o desrespeito pelo espírito de missão da Universidade, a de criar a massa crítica de cidadãos e técnicos de primeira classe de que o país urgentemente precisa. Por contraponto, ou mesmo para abafar a crise em que a Universidade vive atolada, ei-la que, altaneira, julga na praça pública e assassina, consequentemente, um dos seus valores mais altos que nela trabalhava desde as últimas décadas. Mas penso que não se trata apenas de uma questão de ordem moral, no contexto acima, ou de ordem científica, trata-se de um problema de ordem política, também, onde os média foram peça central.
Nesta pequena nota prefiro apoiar-me num dos meus autores preferidos, Piero Sraffa, um autor que nada tem a ver com isto, é certo, mas que nos dá uma sugestão bem curiosa;
Parafraseando Sraffa diremos:
Pode-se imaginar um homem vindo da Lua observando a sociedade, que enxerga todo o processo circular de produção e de troca como um todo, assim como todo o processo de criação e distribuição de rendimento, sem fazer parte dele ou ser influenciado pelas suas contingências internas.
Como assinalam Heinz D. Kurz e Neri Salvadori em On the “Photograph” Interpretation of Piero Sraffa’s Production Equations A View from the Sraffa Archive (original aqui)
Primeiro, caracterizar a situação em consideração com referência ao homem da Lua remete a um evento ocorrido no Parlamento britânico por ocasião de um debate sobre a crise agrícola em 30 de maio de 1820. No decorrer desse debate, Ricardo teria dito que “porque consultava os interesses de toda a comunidade, ele opor-se-ia às leis sobre o trigo” (Ricardo, Obras V: 49). Henry Brougham, o parlamentar por Winchelsea, que apoiava a moção dos agricultores a favor de medidas protecionistas adicionais, qualificou o argumento de Ricardo como se viesse de um homem que “tivesse caído de outro planeta” e vivesse num “mundo utópico” (Ricardo, Obras V: 56) 7. A referência ao “homem da Lua” pode, assim, ser vista como uma metáfora concebida para indicar a necessidade de adotar um ponto de vista distanciado, de ver as coisas como elas são, e não através dos vidros coloridos de algum grupo de interesse particular.
A citação de Sraffa neste contexto é intencional pelo que nos diz quanto ao caminho a seguir na nossa análise sobre o processo contra Boaventura de Sousa Santos e sobretudo pelo que simbolicamente tem de paralelo com a situação de Boaventura. Sraffa vivia exilado na Grã-Bretanha, era comunista, era judeu, e intelectualmente uma referência de primeira importância. Boaventura vive exilado em Quintela, é uma figura sólida de esquerda, a sua obra, uma referência mundial na área da Sociologia, está a ser cancelada à escala mundo, enquanto a obra de Sraffa deveria ser queimada, na lógica dos neoliberais dominantes na época. Paralelamente, um e outro, Sraffa e Boaventura, estão relativamente isolados no meio académico onde a obra científica de cada um deles é expressão condigna do que podemos considerar como Missão da Universidade. Os paralelos são evidentes.
(...)
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